Casa das Garças

Perigos, externos e internos

Data: 

09/03/2026

Autor: 

Pedro S. Malan

Veículo: 

O Estado de São Paulo

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Perguntado sobre as razões da falência de uma grande empresa, o regulador indiano não hesitou na resposta. “A contabilidade é uma linguagem. Como tal, pode ser usada para vários fins; inclusive para escrever peças de ficção.” Nunca me esqueci dessa frase que ouvi décadas atrás em Nova Délhi. Voltou-me à mente com especial força, ao ver o circo de horrores que tem sido o caso do Banco Master – e da máfia do colarinho branco nele envolvida, direta ou indiretamente.

Não é uma história de um só capítulo. As teias do Master começaram a se estender com a compra do Banco Máxima por Daniel Vorcaro, em 2019, quando descobriu sua “vocação de banqueiro”. Entre 2021 e 2024, segundo a Moody’s, o banco saiu da 77.ª para a 25.ª posição no ranking das maiores instituições financeiras do País. Essa trajetória é descrita em dois importantes artigos de Consuelo Dieguez publicados na revista PiauíOperação de risco (outubro de 2024) e A República Federativa do Master (fevereiro de 2026). Os textos mostram a extensão da rede de influência criada pelo banco e os tenebrosos bastidores da fraude.

Estiveram ligados a Vorcaro e ao Master outros bancos e instituições de nomes pomposos, como Will Bank, Letsbank, Voiter e Banco Pleno, até chegar a um surpreendente Fictor, que anunciou na tarde do dia em que Vorcaro foi preso pela primeira vez que havia alcançado um acordo com investidores do mundo árabe – nunca nomeados – para comprar o controle do Master. Houve, ainda, a espantosa tentativa de compra pelo Banco de Brasília (BRB), numa operação impossível de confiar – e que colocou o BRB em fragilíssima situação, que pode deixar seu futuro em questão.

O enredo faz lembrar o belo livro de Kenneth Galbraith, A Short History of Financial Euphoria: Financial Genius is Before the Fall, e as referências que o autor faz sobre dois fenômenos notáveis que operam no universo da mente financeira. O primeiro é “a facilidade com que qualquer indivíduo, ao tornar-se afluente, atribui sua boa sorte à própria perspicácia superior”. E a “tendência complementar dos muitos que vivem em circunstâncias mais modestas de presumir uma aptidão mental excepcional naqueles que, ainda que de forma efêmera, são identificados com a riqueza. Somente no mundo financeiro há um mecanismo tão eficiente para ocultar aquilo que, com o passar do tempo, se revelará como uma ilusão – tanto pessoal quanto geral”.

Sobre o futuro em geral, é da competente Malu Gaspar a relevante observação: “Duas lições estão evidentes, para quem quiser aprender. A primeira é que cada um pode acreditar no que melhor lhe aprouver, mas crenças ideológicas nunca foram capazes de apagar os fatos. A segunda: numa sociedade que idolatra heróis (ou mitos) e despreza instituições, a democracia sempre estará em xeque. Preservá-la é a missão não de falsos heróis, mas de uma sociedade inteira”. A propósito, é admirável o trabalho da imprensa profissional brasileira de expor a impressionante teia de conexões desse personagem no âmbito dos Poderes Legislativo, Judiciário e do Executivo – não apenas do governo do Distrito Federal.

Os perturbadores eventos recentes constituem o pano de fundo necessário para as eleições que o Brasil viverá daqui a sete meses. O eleitorado brasileiro escolherá, então, muito mais que os contornos gerais do quadriênio 2027/2030. Tendo em vista os riscos e as incertezas externas e a fadiga institucional interna com que chegaremos a 2027, o governo eleito (ou reeleito) terá uma tarefa hercúlea nos seus quatro anos de mandato para dar respostas ao difícil contexto que se projeta para a década dos anos 2030.

Como sabemos – ou já deveríamos ter aprendido –, disputar uma eleição é uma coisa, governar um país profundamente dividido é outra, muito diferente. Mais ainda num regime de presidencialismo hiperminoritário em um Congresso multipartidário, com partidos não-programáticos que adquiriram poderes extraordinários sobre questões orçamentárias, dos quais não pretendem abrir mão. Haverá, é muito provável, alta taxa de renovação dos mandatos dos atuais incumbentes na Câmara e no Senado, em boa medida em razão do peso das emendas parlamentares e dos recursos dos fundos eleitoral e partidário. Terão de ser enfrentadas as disfuncionalidades do funcionamento interno de cada um dos Três Poderes, no relacionamento do Executivo com o Legislativo e deste com o Judiciário (e vice-versa).

Em excelente artigo publicado neste espaço (12/9/2025), Simon Schwartzman fez duas observações muito relevantes para o momento atual. A primeira: “É na maneira pela qual as sociedades se constituem e funcionam internamente, mais do que nas relações que mantêm com o exterior ou as doutrinas de alguns de seus políticos e intelectuais, que devem ser buscadas as explicações de seus sucessos e fracassos”. A segunda: “(…) o passado não é destino, e alguns países e regiões, mais do que outros, conseguiram se constituir em sociedades mais democráticas e capazes de gerir seu próprio destino”. O Brasil pretende, legitimamente, ver-se – e ser percebido – como integrante desse último grupo. Não é tarefa fácil neste não-admirável mundo novo pós-2025.

Mulheres, feliz Dia Internacional!

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