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O Brasil vive uma expansão acelerada das apostas online. Em poucos anos, as chamadas bets passaram a fazer parte do cotidiano nacional, estando acessíveis a qualquer pessoa com um celular na mão. Movimentam bilhões de reais, estão estampadas nas camisas de clubes de futebol, patrocinam grandes festas populares e são amplamente promovidas por influenciadores digitais.
O que se apresenta como entretenimento, porém, já revela um custo social preocupante: transtornos do jogo, endividamento de famílias, sofrimento mental e perda de renda. Estimativas divulgadas em dossiê lançado em dezembro de 2025 pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) indicam que apenas os danos à saúde podem custar mais de R$ 30 bilhões por ano ao país.
E mais, os impactos vão além da saúde. As apostas já afetam negativamente a economia real e o futuro dos jovens brasileiros: bilhões deixam de circular no comércio, e 1 em cada 3 jovens afirma que precisaria ter interrompido os gastos com apostas online para conseguir iniciar a faculdade em 2025.
Diante desse cenário, é preciso fazer uma pergunta simples: quem está ganhando com as bets? Enquanto as empresas multiplicam receitas, expandem sua presença na publicidade e se beneficiam de um ambiente digital ainda pouco regulado, os custos recaem sobre a população. Quando as bets ganham, o Brasil perde.
As ações recentes do governo, como a criação de plataforma nacional de autoexclusão, a oferta de teleatendimentos e a formação de profissionais do SUS para acolhimento e cuidado de pessoas com problemas relacionados às apostas, foram passos importantes, mas ainda insuficientes para proteger a população. Em um país onde cassinos e bingos físicos são proibidos, é contraditório permitir que o acesso ao jogo esteja disponível de forma irrestrita na palma da mão, 24 horas por dia.
A experiência internacional e o consenso científico são claros: apostas não são um produto comum. Trata-se de uma atividade com potencial de causar dependência e agravar quadros de ansiedade e depressão, afetando assim famílias e comunidades inteiras. Tal como ocorreu com o tabaco, aqui também cabe reconhecer o problema em sua real dimensão. Produtos que geram danos coletivos precisam ser regulados com base na proteção da saúde, e não na lógica comercial.
Países como as Filipinas já enfrentam consequências severas do alastramento das apostas online, com aumento do endividamento, problemas de saúde mental e impactos sociais amplos. A gravidade do problema tem levado atores de diferentes correntes políticas a convergir em torno de respostas mais firmes. O mesmo movimento também precisa ocorrer no Brasil. É urgente avançar em medidas que reduzam a exposição da população, como a proibição de jogos online de alto risco e da publicidade de bets.
O Congresso Nacional deve dar prioridade a iniciativas voltadas a conter a expansão de um setor baseado no estímulo ao comportamento compulsivo, com destaque para o PL Brasil Contra Bets, apoiado por parlamentares de diferentes partidos. Cabe ao governo federal, em especial às áreas de saúde e regulação econômica, e ao Congresso Nacional, transformar esse diagnóstico em ação concreta.
O Brasil já demonstrou no passado que é capaz de liderar políticas públicas inovadoras na proteção da saúde. Diante do avanço das apostas online, será preciso coragem semelhante. O país precisa decidir de que lado está: da saúde e do bem-estar da população ou de um modelo de negócio que lucra sobre o risco, o endividamento e a vulnerabilidade de milhões de brasileiros.