Casa das Garças

Na sala de espera

Data: 

11/06/2026

Autor: 

Gustavo Franco

Veículo: 

Carta Estratégias

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Maio inevitavelmente começa com o comício do Dia do Trabalho, organizado pelas centrais sindicais, sempre misturando atrações artísticas e a presença de políticos. 

Desde a edição de 2024, no entanto, quando o evento foi um fiasco de público, mesmo com a presença de Lula, a data perdeu densidade. Especialistas observam que o esvaziamento do evento é uma tendência internacional, que reflete alterações nas prioridades e agendas do mundo do trabalho. 

Mas a oportunidade não foi perdida. O governo escolheu a data para o anúncio do programa Desenrola 2.0, o segundo esforço para “apoiar famílias brasileiras na renegociação de dívidas em atraso”. Tal como a primeira versão, a iniciativa é uma espécie de “feirão” de reestruturação de dívidas, cujo impacto é tanto maior quanto mais recursos públicos são utilizados. 

As estatísticas de “negativados” sempre impressionaram os políticos, e o endividamento pessoal fornece uma das mais importantes alavancas para o consumo. Há certo paradoxo quando o governo incentiva esse consumo alavancado para depois identificá-lo como problema e utilizar recursos públicos para sustentá-lo. 

O Desenrola 2.0 foi visto como mais uma bondade de natureza eleitoral, que vinha se juntar a outros programas, que vão congestionando a publicidade oficial (Gás do Povo, Pé de Meia etc,). 

Na verdade, importa menos a efetividade do programa que o noticiário que ele provoca. 

A maior “bondade” de todas, todavia, tinha um trâmite mais complexo, inclusive de natureza constitucional. A medida foi guardada para este momento mais crítico da competição eleitoral: a redução na jornada de trabalho. 

A substituição da escala 6×1 por outro regime vem sendo discutida nos últimos meses, num contexto de crescente aprovação popular, tal como se esperaria, por exemplo, de um aumento geral de salários, ou do salário-mínimo. 

Quem pode ser contra? 

Entretanto, tem-se aí um desses exemplos enjoados de temas de grande apelo popular, mas de viabilidade econômica duvidosa, na melhor das hipóteses. Se a elevação do salário mínimo realmente eleva o poder de compra das classes despossuídas, por que mesmo não se faz? 

O longo histórico de populismo inflacionista já ensinou às autoridades brasileiras, latinoamericanas e de outros continentes, que essas mágicas são contraproducentes. Aumentos de salário nominal geralmente acabam reduzindo o salário real e congelamentos de preços acabam fomentando a própria inflação. 

É romântica a ideia de que o salário não poderá ser reduzido para um contrato de trabalho com menos horas. Se o ano-calendário também não sofrer uma redução, o PIB terá algo como 14% (1/7) menos dias úteis: como esperar que não seja menor? 

Mesmo assim, a retórica em torno da medida é muito poderosa. O debate sobre o tema não foi muito grande: a PEC foi votada e aprovada na Câmara com números impressionantes: 461 a favor, 19 contra.

Há certa discussão quanto a variantes e com respeito à velocidade de adaptação. Mas a matéria ainda vai ao Senado, onde se diz que o projeto encontrará “o adulto na sala”¹. 

O fato é que o governo parece mais interessado nas repercussões de curto prazo na imprensa, e nas pesquisas eleitorais, que nos impactos na economia e na produtividade. O poder gravitacional da eleição é imenso, parece atrair tudo para si, mesmo a luz desaparece no vórtex das versões e narrativas para influir na votação. 

Houve grande abalo em meados do mês com a divulgação de um áudio (dia 15) do principal adversário de Lula, Flávio Bolsonaro, em que se dirigia a Daniel Vorcaro, o onipresente acionista controlador do Banco Master. 

Em contraste, houve muita discrição e comedimento diante da notícia (dia 25) de que o presidente iniciava 15 sessões de radioterapia para lidar com as consequências de um “carcinoma basocelular” (antes referido como uma lesão na pele, agora descrito pela “Agência Brasil” como “o tipo mais comum de câncer de pele”) retirado em abril do couro cabeludo do presidente. 

O presidente exibiu pequeno crescimento nas pesquisas, tudo considerado, e o mês de maio terminou com o retorno das querelas em torno de tarifas impostas pelos EUA.

Na verdade, foram dois temas com os EUA: (i) tarifas conforme recomendadas por um relatório do USTR (United States Trade Representative) na forma da seção 301 da lei de comércio exterior americana, um rito já bem conhecido e testado do protecionismo americano²; e (ii) o US Department of State decidiu designar como organizações terroristas o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho)³. 

É complexa a interpretação de ambas as medidas. 

No caso do relatório do USTR, há muitos temas misturados. Existe o protecionismo brasileiro – do qual o Brasil não pode declarar-se inocente –, mas em um invólucro politizado e misturado com temas como pirataria, o PIX, o desmatamento e o combate à corrupção, todos organizados de modo a prover base legal para o aumento de tarifas e negociações que devem se seguir. 

É uma reprise menos improvisada do “tarifaço” do chamado liberation day (02/04/2025), que foi derrubado por uma decisão da Suprema Corte dos EUA. 

O segundo tema, referente ao PCC e ao CV, foi o que teve maior impacto eleitoral. Há vários motivos: o tema da segurança pública é talvez o maior de todos aos olhos do eleitor brasileiro, e o candidato Flávio Bolsonaro teria recomendado a medida ao governo americano. Há menos clareza sobre os reais efeitos dessas duas ações. As tarifas serão negociadas e suas justificativas, objeto de atenção da diplomacia especializada de ambos os países. Os especialistas não parecem muito assertivos sobre as exatas consequências da segunda medida. Pesquisas de opinião parecem suprir as lacunas, e as opiniões estão divididas sobre o assunto: o eleitor brasileiro não tem especial simpatia por Donald Trump, mas não desaprovou a medida. 

Pouco se falou de economia nesse mês de maio, quando as expectativas de inflação pioraram um tanto, e o anúncio do PIB para o primeiro trimestre confirmou a situação de aquecimento. Vai ficando mais concreta a possibilidade de se interromper o ciclo de baixa dos juros. 

As eleições estão próximas, mas não chegam. Os profissionais do assunto dizem que as coisas começam de verdade só em agosto, com as convenções partidárias e a propaganda eleitoral pela TV. Parece haver um longo deserto a atravessar, um chá de cadeira numa sala de espera em que a campanha já arde em alta temperatura mas formalmente só há “pré-candidatos” e tudo o que se parece com “campanha antecipada” é um problema com a Justiça Eleitoral. 

Claro que é difícil para a Justiça Eleitoral tomar as “bondades” federais como ato de campanha. O assunto é delicado. Na verdade, eleição é um assunto delicado, sempre.

Claro que já começou, e na sala de espera há muitas distrações, nenhuma delas é inocente. 

1 https://braziljournal.com/a-camara-fez-uma-farra-com-a-jornada-6×1-o-senado-pode-ser-o-adulto-na-sala/

2 Para o press release do USTR: https://ustr.gov/about/policy-offices/press-office/press-releases/2026/june/ustr-section-301-determination-brazils-unreasonable-acts-policies-and-practices

3 Para o press release do Departamento de Estado: https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2026/05/terrorist-designation-of-comando-vermelho-and-primeiro-comando-da-capital

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