Casa das Garças

Farol em tempos conturbados

Data: 

06/10/2026

Autor: 

Paulo Hartung

Veículo: 

Estadão

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Atravessamos uma era de complexidades e de sobressaltos. Tensões geopolíticas e uma avalanche protecionista reconfiguraram a lógica global. Como urgência incontornável, a crise do clima nos desafia a buscar caminhos para descarbonizar a produção. Diante de um cenário que enseja pessimismo, devemos voltar os olhos aos bons exemplos, como aqueles que mostram ser possível produzir e conservar.
O Brasil, com seus abundantes ativos naturais, matriz energética renovável e expertise em soluções baseadas na natureza, tem a oportunidade de ampliar sua relevância. Nesse sentido, o setor de árvores cultivadas para fins industriais e de restauração oferece lições inspiradoras.
A Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) lança nos próximos dias seu Relatório Anual 2026, demonstrando a força dessa agroindústria que, de um ano para cá, produziu 30 milhões de toneladas de celulose. Faça chuva ou faça sol, o setor planta 2,2 milhões de árvores por dia. Em seu desenvolvimento, essas árvores absorvem carbono da atmosfera e o estocam em sua biomassa, dando origem posteriormente a bioprodutos consumidos por 4,3 bilhões de planetários. Refiro-me a livros, cadernos, embalagens, móveis, painéis de madeira, pisos laminados, papéis sanitários e até tecidos, como a viscose. O documento mostra como o Brasil alcançou recordes históricos, exportando 20,7 milhões de toneladas de celulose. Somos o maior exportador e o segundo maior produtor dessa matéria-prima, além de ocuparmos a 7.ª posição no mercado global na produção de papel e de painéis de madeira. Em 2025, o setor gerou uma receita bruta de R$ 249,4 bilhões, garantindo empregos diretos para mais de 710 mil brasileiros.
São 10,73 milhões de hectares de área produtiva, cuja expansão se dá majoritariamente sobre áreas previamente antropizadas. Exemplo disso é a conversão de pastos de baixa produtividade em área florestal.
O Mato Grosso do Sul lidera a expansão, com o acréscimo de 222 mil hectares no último ano. O Estado recentemente presenciou a inauguração da maior fábrica de celulose em linha única do mundo, da Suzano, em Ribas do Rio Pardo. Agora, acompanhamos a construção, em Inocência, do que será a futura maior fábrica de celulose, da Arauco – um dos mais robustos investimentos privados do Brasil na atualidade. O setor ainda prevê uma nova unidade industrial na Região Sul, da CMPC, em Barra do Ribeiro (RS). Três exemplos da pujança de um segmento da economia que vai na contramão da desindustrialização do País.
A grandeza desse modelo se completa com a conservação em larga escala. O manejo em mosaico intercala mata nativa com áreas produtivas, criando corredores ecológicos que protegem o solo, os recursos hídricos e a biodiversidade. A partir deste modelo, estima-se que o setor conserve 7,15 milhões de hectares de florestas.
O Relatório da Ibá destaca ainda o desabrochar de uma nova frente, que vem desenvolvendo modelos de negócio inovadores: a restauração florestal e a silvicultura de espécies nativas. Este segmento já conta com 57,5 mil hectares de áreas em regeneração. A partir da geração de créditos de carbono de alta confiabilidade para o mercado internacional e da comercialização de produtos madeireiros e não madeireiros, a restauração de ecossistemas vem atraindo investimentos de empresas globais.
A indústria de árvores cultivadas para fins industriais e de restauração enfrenta também desafios. O primeiro deles é o da emergência climática, que afeta plantações e demanda debate sobre as rotas possíveis para a resiliência das árvores. Temos uma experiência bem-sucedida em melhoramentos genéticos e clonagem. Precisamos evoluir nesses caminhos, mas também buscar alternativas.
Enfrentamos múltiplos problemas que solapam nossa competitividade, como a falta de mão de obra. Outro desafio antigo é o da infraestrutura: rodovias, ferrovias, portos, conectividade no campo. Como o País tem baixa poupança e precisa acessar recursos externos, é imperativo constituir ambiente de negócios confiável, com segurança jurídica e respeito a regras contratuais, a fim de atrair capital privado que nos dote de infraestrutura adequada.
Longe de promessas abstratas, a indústria de árvores cultivadas constrói um futuro próspero, levando dinamismo econômico a regiões socialmente deprimidas. Trata-se de um exemplo de setor econômico que deu certo no Brasil, como é também o caso do agro moderno, da Weg Motores, da Embraer, entre outros. Nossa história de avanços e nossos desafios serão, inclusive, debatidos a partir de hoje no Congresso e Exposição Internacional de Celulose e Papel da ABTCP, que ocorre até o dia 8 de outubro no Transamerica Expo Center.
O Brasil é pródigo em vantagens naturais. Mas vocação não basta. Recursos só se transformam em riqueza compartilhada quando encontram ciência, capital humano, investimento, estabilidade institucional, regulatória e normativa, além de visão de longo prazo. Num cenário crescentemente complexo, o setor se firma na vanguarda das demandas do presente e do futuro. Como bem mostra o Relatório Anual da Ibá, pode e deve servir de farol rumo a um novo modelo produtivo. Especialmente em tempos tão conturbados.

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