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Há poucas pessoas que têm uma ideia boa e a defendem por vinte anos, através de meia dúzia de planos fracassados e um sem-número de textos, até que, de repente, a coisa funciona. Francisco Lopes foi assim. Esta é a crônica de uma obstinação, a de um economista que não desistiu de derrubar a hiperinflação brasileira até que ela, finalmente, foi vencida.
A história começa modestamente. Em dezembro de 1975, na reunião anual da Anpec, Chico apresenta “Inflação, correção monetária e controle de preços”, publicado na Revista Brasileira de Economia no ano seguinte. É a primeira manifestação pública de um interesse que Dionisio Dias Carneiro lhe havia despertado. Ninguém, àquela altura — nem provavelmente o próprio Chico —, suspeitava que aquele seria o primeiro passo de uma cruzada que atravessaria três planos de estabilização, dois nomes de moeda e quase duas décadas.
Segue-se um conjunto de textos sobre o tema, mas o ano de 1980 é a meu ver o ponto de virada intelectual. Em outubro, sai o Texto para Discussão n. 10 da PUC-Rio, primeira versão de “Inflation, growth and wage policy: a Brazilian perspective” — o artigo que, em coautoria comigo, seria publicado três anos depois no Journal of Development Economics. Apresentado em 15 de dezembro num seminário internacional sobre inflação na FGV-Rio, o texto teve uma vizinhança providencial: no mesmo dia, Thomas Sargent apresentou “The End of Four Big Inflations”. A evidência de que as hiperinflações europeias dos anos 1920 haviam sido estancadas de uma hora para outra — supostamente por uma mudança do regime fiscal — impressionou os professores da PUC-Rio ali presentes: André, Chico, Dionisio, Persio e eu. Acredito que aquele foi o ponto em que abandonamos a velha dicotomia “gradualismo x choque monetário”, que Simonsen consagrara em 1970, para começar a imaginar mudanças de regime (não aquela desenhada por Sargent) que dessem cabo da inflação alta de uma só vez.
Essa linha de pensamento é desenvolvida na PUC-Rio nos anos seguintes. Ela culmina, para Lopes, em agosto de 1984, quando ele publica na Economia em Perspectiva, do Conselho Regional de Economistas de São Paulo, o texto que dá nome ao que se tornaria uma marca registrada da PUC-Rio: “Só um choque heterodoxo pode derrubar a inflação”. Um mês depois, em Buenos Aires, um almoço entre Chico, Dionisio Dias Carneiro e Rogerio Werneck com Adolfo Cantrinot, José Luis Machinea e Juan Sourrouille muda a história dos dois países. Carlos Díaz Alejandro sugere, meio de brincadeira, que a Argentina poderia experimentar “algumas das ideias exóticas que estavam sendo geradas na PUC-Rio”. Para surpresa dos brasileiros, os argentinos levam a sugestão a sério — e nasce ali o embrião do Plano Austral.
Meses depois, Chico apresenta a Tancredo Neves uma proposta de reforma monetária e pacto nacional de estabilização. A reação atribuída ao presidente eleito, que não chegaria a tomar posse, é um misto de espanto e simpatia: “Esse filho do Lucas Lopes tem cada ideia!”
Em setembro de 1985, em almoço com André Lara Resende, então no Banco Central, ao saírem de um debate no Clube de Engenharia do Rio, Chico manifesta seu entusiasmo pelo Austral, lançado três meses antes. O entusiasmo transborda em pergunta óbvia: por que não fazer algo parecido aqui? Em outubro, com a documentação argentina em mãos, os dois rascunham um projeto de reforma monetária com a nova moeda ali batizada de Cruzado (sem congelamento nem as extravagâncias salariais que caracterizaram o plano Cruzado).
Meses depois, após o lançamento do plano Cruzado, Chico participa da famosa reunião de Carajás e assume consultoria informal com Sayad, no Ministério do Planejamento.
Com o Cruzado enfrentando dificuldades crescentes, Chico elabora, sem sucesso, uma alternativa ao “Cruzado II” que o governo adotou em novembro de 1986. Ao sair do Ministério do Planejamento em março de 1987, Sayad deixa para Sarney um novo plano, redigido com Chico e Luna, que não é implementado.
Entre abril e junho de 1987, como consultor, Chico elabora o Plano Bresser. Também não é o definitivo.
Maio de 1988 é o momento em que a moeda do futuro ganha nome. Com o deputado federal Osmundo Rebouças, Chico elabora o Projeto de Lei 1017/1988, que propunha duas unidades de curso legal — o cruzado e o real — como instrumento de estabilização de preços. É a primeira vez que a palavra “Real” aparece nessa história.
Essa oportunidade chegou, com a ida de Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda. Entre setembro de 1993 e dezembro de 1994, sem cargo formal, Chico presta consultoria à equipe que desenha o Plano Real. Em 12 de janeiro de 1995, toma posse como Diretor de Política Econômica do Banco Central — a hiperinflação brasileira, enfim, morta e enterrada, com uma moeda chamada Real cumprindo o nome que Chico lhe dera sete anos antes.
Vinte anos separam o texto de 1975 do dia em que Chico se sentou na sala da diretoria do Banco Central de um país finalmente estável. Entre um marco e outro, planos abortados, ideias recusadas, um presidente eleito que nunca tomou posse e uma obstinação em não deixar a hiperinflação vencer por cansaço do adversário. Chico não inventou a estabilização brasileira, é claro, mas do primeiro ao último capítulo, nunca desistiu de fazê-la bem sucedida. Um Real Cruzado da estabilização, título de que talvez ele teria gostado.