Casa das Garças

Na ‘química’ entre Lula e Trump ficou claro que as relações entre os países estão malconduzidas

Data: 

27/09/2025

Autor: 

Gustavo Franco

Veículo: 

O Globo e O Estado de São Paulo

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O gesto de Trump ao encontrar-se pessoalmente com Lula foi uma novidade importante para, talvez, endereçar as dúvidas sobre as relações entre o Brasil e os EUA surgidas em 2 de abril – o “liberation day”, o dia do anúncio do tarifaço americano.

Tinha começado aí uma espécie de sinuca de bico no relacionamento entre os dois países. Parecia impossível sair disso, mas bastaram alguns segundos de contato pessoal, e uma palavra certa.

Trump fez parecido com Bush em 2002 e Obama anos depois: um elogio bem calculado. Fica a reflexão sobre a importância da gentileza – sincera ou não, pouco importa – para a diplomacia presidencial.

Nesse minúsculo momento mágico entre os presidentes ficou claro que as relações econômicas entre os países estavam malconduzidas, talvez por conta de auxiliares briguentos que convém, talvez, afastar.

Os dois lados precisam refletir sobre seus erros, o principal dos quais o de politizar o assunto, uma tentação difícil de resistir.

Do lado americano, deve estar claro que o protecionismo é uma solução inferior e mesmo ineficaz para a sobrevalorização do dólar, e que o problema da balança comercial americana é principalmente com os chineses. Melhor que desvalorizar o dólar seria fortalecer o remimbi, mas é preciso combinar com os chineses, como em 1985 os americanos combinaram com os japoneses.

Talvez isso já esteja em andamento. São muitas as questões entre chineses e americanos.

Claro que o Brasil não tem nada com isso, e que está recebendo um tratamento incorreto e desproporcional. Os próprios americanos (importadores e consumidores finais) foram prejudicados.

Do lado brasileiro, foi uma escolha soberana e errada abandonar as pautas tidas como do Consenso de Washington, como a da abertura econômica e a do grau de investimento (a busca do equilíbrio fiscal sustentável sem pedalada contábil). O ministro Haddad parece que só tem um assunto: impostos.

Foi também uma escolha legítima prestigiar o BRICS e adotar uma retórica antiamericana meio estudantil, como quem quisesse romper relações.

Ambos precisavam reconsiderar, daí a absoluta conveniência da “química”, ou de uma espécie de “deus ex machina” (explique-se: a expressão é usada no teatro grego para a situação em que um dos deuses desce do Monte Olimpo para proporcionar um final inesperado a um drama complexo) que permite aos dois presidentes voltar atrás sem reconhecer erros. Afinal, a química é fenômeno interpessoal que dispensa explicações.

Claro que tudo depende do que farão a seguir, e pode ser que errem tudo de novo. Oxalá tenham juízo.

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