Data:
Autor:
Veículo:
Compartilhe:
A política vive um terceiro momento crucial em sua trajetória histórica, um marco divisor na sua linha do tempo. Do nascimento na ágora grega, passando pela releitura iluminista, a política enfrenta atualmente um desafio colossal: reinventar-se de acordo com um modo inédito de existir, aquele que se dá tanto por meio de laços presenciais quanto por conexões digitais.
Nepal, Madagáscar, Marrocos, Peru, Indonésia, Quênia e Filipinas. Esses países experimentaram recentemente a força da ciberpolítica efetivada pela geração Z – nativa digital e que circula com desenvoltura no “continente de bytes”. Por outro lado, os extremismos, que encontram lugar discursivo privilegiado nos ciberterritórios, especialmente turbinados por desinformação/fake news, também são um fenômeno da digitalidade.
Assim, os desafios políticos decorrentes dessa civilização sincrética, informacionalpresencial, vão desde o diálogo com os mais novos até a confluência de práticas políticas consolidadas com as inovações da política digitalizada, passando pelo enfrentamento a movimentos anti-iluministas, notadamente oriundos do ciberespaço, mas com ecos potentíssimos dada a relevância das redes.
De toda sorte, não é simples abrir essa nova fronteira histórica para a política de base democrático-republicana e humanista. A ação política informacionalizada é veloz, multifocal, compartilhável e não hierarquizada, mobilizada muito mais por influencers e apoiadores do que por lideranças estabelecidas no campo político.
É preciso destacar, também, que esse movimento ocorre em propriedade privada. As chamadas big techs controlam plataformas e os seus algoritmos dão a feição das redes. Nessa circunstância, os ciberterritórios conformaram-se como um mercado de captura e venda de atenção, dinamizado por polêmicas, pela lógica do “nós contra eles”, pela gestão de medo e pelos discursos de ódio.
Foi justamente para fazer da existência humana um fato histórico assentado em nossas potencialidades para a fraternidade, indo muito além da agressividade, que os gregos inventaram a política. Em vez das armas e das guerras fratricidas, a argumentação, a negociação e a racionalidade constituem laços – podemos ser muito mais do que iguais se matando, se odiando…
Enfim, neste tempo de grandes mudanças, o fundamental segue em duas direções: compartilhar e sustentar valores inegociáveis da política emancipatória e abrir-se ao novo, inventando novas formas de se fazer política, combinando o tradicional e o inovador, buscando o que cada um tem de melhor.
“O desafio está justamente em encontrar – ou inventar – as formas mais propícias à reconexão entre o ‘mundo da vida e da sociedade’ e o ‘mundo das instituições e do Estado’. Esse é o grande desafio da política democrática contemporânea”, alerta Fernando Henrique Cardoso, no livro Crise e Reinvenção da Política no Brasil.
“Diante desse quadro, é preciso revalorizar as instituições clássicas da liberaldemocracia (parlamento, partidos, separação dos Poderes e freios e contrapesos entre eles). Elas continuam a ser tão indispensáveis quanto sempre foram. Trata-se de renová-las, de torná-las mais adaptadas às demandas da sociedade”, recomenda.
Como destacou o pensador Steven Pinker, é preciso um “novo iluminismo”, fundado na racionalidade e na ciência, com “normas e instituições que canalizem interesses particulares para benefícios universais. Entre essas normas estão a liberdade de expressão, a não violência, a cooperação, o cosmopolitismo, os direitos humanos e o reconhecimento da falibilidade humana; entre as instituições estão a ciência, a educação, os meios de comunicação, o governo democrático, as organizações internacionais (…)”.
Nesta atualidade eivada de novidades impactantes, é preciso que não se perca a agenda fundamental para a construção de um mundo essencialmente humanístico, assentado na dignidade de todos em sua diversidade, na justiça socioeconômica como propósito máximo de todo o exercício de poder e no progresso como meio de fazer avançar a civilização.
A história não tem destino, colocando-se como uma obra em aberto. Paul Valéry afirmou que sempre que nasce um, nasce com ele a demanda de educação para a civilidade. Assim, além de fazer prosseguir a experiência democrático-republicana, temos o desafio extra de reinventá-la sob os novos termos da contemporaneidade.
Se foi preciso passar da democracia direta e da cidadania excludente da Grécia clássica para a democracia representativa de grandes nações organizadas pelos valores iluministas a partir do século 18, cabe inventar, por ora, um novo fazer político na contingência da sociabilidade bidimensional — digital-presencial.
A ação política é o caminho que temos para buscar êxito nessa empreitada desafiante. Conforme estabeleceu Fernando Henrique Cardoso, “a política não é a arte do possível. É a arte de tornar o necessário possível. Em outras palavras, política é a arte de ampliar o campo de possibilidades. Com convicção e esperança.