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“Feitos os discursos, [seguiu]-se um breve diálogo em latim entre o reitor e o doutorando”. O reitor era o da Universidade de Coimbra, entende-se, mas o doutorando era José Murilo de Carvalho (JM, doravante) — recebendo o título de Doutor Honoris Causa. Onde foi que nosso querido austero historiador aprendeu latim tão bem assim? Suas memórias, Gotas do tempo, publicadas postumamente, esclarecem o latim e a sisudez². E também por que nós, seus amigos, sentimos tanta falta dele.
Até os dez anos, JM viveu com os pés descalços na lama na fazenda de Santa Cruz, no sul de Minas Gerais. Dos dez aos 22 foi seminarista, experiência que descreve em capítulos agrupados sob o título de “Outras cruzes”. Vendo-se descrente, largou a batina antes do ordenamento e foi “solto em Belo Horizonte no início de 1962 aos 23 anos, totalmente despreparado para enfrentar a vida” (p. 59). Como se não bastasse, nesse mesmo ano teve de servir o Exército, tendo passado da idade de fazer o CPOR.
O que o salvou para o enfrentamento da vida foi ter sido aprovado em segundo lugar no vestibular para o curso de Sociologia e Política da Faculdade de Ciências Econômicas (FACE) da UFMG. Isso depois de levar pau no vestibular para Economia, “nocauteado por uma simples equação de segundo grau” (p. 60). Mas não deriva daí sua aparente ojeriza aos economistas. É que logo notou que as meninas da faculdade namoravam os sociólogos e politólogos, mas se casavam com os economistas. Foi assim com sua melhor amiga e grande paixão, cujo nome ele não revela. Diz ele: “Nunca perdoei os economistas por essa competição desleal” (p. 68). Engraçado isso. Fui contemporâneo de JM na FACE e sempre achei que as meninas da faculdade preferiam os esquerdistas de sociologia e política, especialmente os da Ação Popular (AP) como JM, aos alienados que nem eu da economia. Cada pobre estudante é infeliz à sua maneira, como diria Tolstói.
Por que a sisudez? Parte é natureza, imagino. Mas parte foi o rigor dos pais. “Não me lembro de um gesto de carinho de minha mãe. Da parte de meu pai, lembro-me dos cascudos, da vara de marmelo e dos puxões de orelha” (p. 26), diz ele. Forçados por sua mãe e por sua avó, cujas religiosidades profundas exigiam padre na família, JM, com 10 anos, e um seu irmão foram internados em seminário franciscano. O irmão só aguentou um ano, mas JM, estoico já então, apenas observa: “sobrou para mim”. E prossegue: “Por doze anos vivi numa redoma, longe não só da família como do mundo real… que nos era sempre apontado como fonte de tentações e pecados. São coisas, sobretudo o isolamento, que marcam e que exigem tempo para ser superadas, quando o são” (p. 54). JM se pergunta, sem conseguir responder, por que aguentou tanto tempo. Chega mesmo a citar uma psicóloga (que deve ter estudado em Bagé), que lhe diagnosticou “grande carência afetiva”. Enfim, sua família ficou sem padre e o país ganhou um grande historiador.
Como compensação, recebeu uma educação primorosa. “Meu pai, e nisso era acompanhado por minha mãe, valorizou sempre a educação…Todos dez filhos, cinco mulheres e cinco homens, completaram o curso universitário…Que ele e minha mãe tenham realizado tal proeza com a precariedade de recursos de que dispunham é algo extraordinário” (p. 30). No seminário, se viu numa instituição dirigida por homens sérios e cultos: “Com eles, acostumei me à disciplina do trabalho, desenvolvi o interesse pelo estudo e pelas letras, recebi boa formação humanística, que incluía o latim, o grego e alguma noção do hebraico…Sem essa formação talvez não tivesse podido seguir a carreira que depois escolhi” (p. 55).
A FACE de JM, minha também, era uma faculdade extraordinária. O que fazia a diferença era o programa de bolsas, em que alunos selecionados, de ambos os sexos, conviviam entre si e com jovens professores em tempo integral. Com o gosto pelo estudo ali adquirido e as oportunidades que então se abriram, especialmente com as bolsas de estudo da USAID e da Fundação Ford, muitos, inclusive JM e eu, seguimos para fazer doutorado nos EUA.
A FACE tinha outra característica. A militância política era obrigatória, mas igualmente obrigatória — pelo menos para os bolsistas — era o rigor acadêmico. Marxismo todos estudamos, é claro, era inevitável naqueles conturbados tempos pós-Cuba e pré-golpe de 1964. Mas havia também forte influência do chamado empirismo norte-americano. JM, depois de militar pela AP na fundação de sindicatos rurais, ficou como todos nós aturdido pelo sucesso do golpe militar. Sua resposta foi buscar entender o que eram os militares brasileiros, indo além da hipótese marxista de serem eles a guarda pretoriana da burguesia. Daí seu primeiro texto acadêmico, sobre a relação entre civis e militares na evolução política do país. Não foi publicado, mas lhe valeu ingresso em Stanford, e, anos depois, convite de Boris Fausto para escrever sobre os militares na prestigiosa História geral da civilização brasileira.
JM ficou em Stanford de 1966 a 1968. Além da excelência do ambiente acadêmico, pôde acompanhar o intenso debate político daqueles anos: direitos civis e guerra do Vietnã. E, claro, desfrutar das delícias de San Francisco, no alvorecer da revolução de costumes. Para um quase padre, deve ter sido uma experiência e tanto.
Por influência de Wanderley Guilherme dos Santos, que chegou a Stanford um ano depois dele, JM mudou o foco de sua tese, do poder local para o poder nacional, decidindo estudar o papel das elites políticas na construção do Estado brasileiro no século XIX. A tese foi escrita no Brasil e defendida em 1974, com o título Elite and State-Building in Imperial Brazil. Diz ele: “O tema por mim escolhido ia contra a corrente. A ditadura entrara em sua fase mais violenta e, no meio acadêmico, elite era coisa malvista, mal ouvida e mal lida” (p. 103). Com o título de A construção da ordem, sua primeira parte foi publicada no Brasil em 1980: “a recepção, como era de esperar, foi fria, para dizer o mínimo…sobretudo em meios uspianos” (p. 104). Após o fim da ditadura, e com a inclusão da segunda parte, intitulada Teatro de sombras, o livro passou a ter boa aceitação, sendo hoje reconhecido como trabalho seminal sobre o sistema político imperial e seus agentes centrais.
A versão original da tese foi recusada para publicação pela editora da Universidade de Princeton por ter, segundo um parecerista, estilo “awkward and inelegant”. JM diz que a avaliação não foi “lá muito injusta” (p. 104). E esclarece que, influenciado pela negligência da academia americana com o estilo da escrita, despreocupou-se com o bem escrever, qualidade que herdara de seu pai e fora reforçada na FACE por Francisco Iglésias. “De volta ao Brasil, levei algum tempo para consertar o estrago, se o consertei. Ajudou-me o fato de ter começado a escrever em jornais, sobretudo o Jornal do Brasil” (p. 105).
JM voltou ao Brasil no final de 1968 para lecionar no mestrado em ciência política da UFMG. Depois vieram o IUPERJ, a partir de 1978; a Casa de Rui Barbosa, em 1986; e o Departamento de História da UFRJ, de onde se aposentou em 2009, aos setenta anos.
Há histórias marcantes nesse período, sobre ensino, pesquisas e viagens, mas ressalto um intermezzo e um parêntese, como JM os denomina. O intermezzo foi sua estada, no ano acadêmico de 1981-82, no Institute for Advanced Study, de Princeton, “um luxo, um paraíso para qualquer pesquisador” (p. 129), onde trabalhou Albert Einstein. Os contatos feitos durante esta estada (“mais a leitura de alguns autores franceses”, p. 144) deram uma nova direção aos trabalhos de JM, uma nova maneira de olhar o Brasil, consagrada em dois clássicos, Os bestializados, de 1987, e A formação das almas, de 1990 (além de em Cidadania no Brasil, cuja primeira versão mexicana é de 1995). A tese de doutoramento analisara a política de cima para baixo, com ênfase nos construtores da ordem. O novo olhar era de baixo para cima, com foco nos que estavam fora da ordem. Houve também uma mudança na abordagem: na tese, havia hipóteses, dados quantitativos, muitas tabelas. Os novos livros cortejavam a história cultural, com uso diversificado de fontes, inclusive iconográficas. Com a ironia habitual, diz JM: “A recepção dos dois livros foi muito melhor do que a [da tese]. De povo, todo mundo gosta, mesmo que seja apenas no papel” (p. 145).
O parêntese é mais prosaico, mas creio igualmente revelador. Trata-se de experiências vividas em sítio que adquiriu em meados dos anos 1980 em Seropédica, localizado na região metropolitana, perto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Ele relata quatro episódios, dos quais destaco dois. Um com a polícia militar, que o trata como doutor e trata como macumbeira a humilde crente que ele socorrera no hospital. O segundo, com a polícia civil, que em vez de registrar a ocorrência, o aconselha a pagar alguém para dar cabo de um meliante que o ameaçava com bilhetes no portão do sítio. Essas estórias desaguam na constatação de uma radical mudança social e política: a Igreja Católica dizimada pela invasão de grupos protestantes, sobretudo pentecostais. Diz ele: “A Teologia da Libertação afastava a Igreja do povão. Oferecia política, quando as pessoas queriam religião e ajuda. Os pentecostais ofereciam religião, ajuda e democracia interna” (p. 126). E arremata: “Esse era o mundo em que, ampliando o olhar para todo o país, viviam milhões e milhões de brasileiros…A ideia de estar vivendo dentro de uma bolha social [na universidade e na Zona Sul do Rio] perseguiu-me desde então e passou a influenciar minhas ideias sobre o Brasil e sobre minha própria profissão” (p. 126). Não foi apenas Princeton, portanto. Foi também Seropédica, onde JM viu de perto um Brasil em que a polícia decide pela aparência quem é doutor e quem é suspeito, e em que o crime se resolve por encomenda. Daí os clássicos sobre os limites da cidadania no Brasil, escritos com maestria literária, que renovaram a historiografia e o puseram na galeria dos grandes intérpretes do país.
Para JM, a honra maior que recebeu foi a de Doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra. Mas ele também relata com grande orgulho ter sido membro da ABL, da ABC e do IHGB. Sobre a ABL, observa que nela, “além de poetas e romancistas, há jornalistas, filósofos, historiadores, sociólogos, juristas, políticos, cineastas e até economista” (p. 217). Agradeço-lhe a lembrança, apesar do “até”.
Escrito durante a pandemia, o livro termina em 31/12/2020 de forma comovente, em seção intitulada “Duas mortes, duas vidas”. As mortes são falsos alarmes do fim que pressentia próximo; as vidas são as dos netos que sua companheira Norma Cortes lhe legou, Laura e Joaquim, “grande(s) alegria(s) de meus anos outonais” (p. 231). Encerra, com ternura, mas já sem esperanças: “Olho para essas duas adoráveis crianças e fico apreensivo ao pensar no país e no mundo que elas terão que enfrentar” (p. 231). A apreensão é minha também. Saudades, José Murilo!
1 Comunicação para a sessão de 15/10/2026 da Academia Brasileira de Letras.
2 Carvalho, José Murilo de. Gotas do tempo: memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.