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Pedalar pelo Centro do Rio aos domingos revela os sinais de transformação. Há mais de cinco anos, faço desses passeios de bicicleta um ritual para observar as mudanças na paisagem urbana. O que mais chama a atenção é o renascimento de prédios antigos, convertidos em residências, e o surgimento de novos edifícios onde antes havia abandono.
Esse movimento, que revitalizou cidades como Bilbao, Bordeaux, Buenos Aires e Madri, chega ao Rio com suas peculiaridades. Lá fora, as áreas recuperadas estavam próximas de bairros residenciais tradicionais. Aqui, o Centro e a Região Portuária são distantes dos grandes núcleos residenciais, tornando a mudança mais desafiadora.
O segredo para essa transformação está nos clusters: agrupamentos de projetos que, juntos, criam sensação de segurança e atraem serviços essenciais para quem escolhe viver no Centro. Em minhas pedaladas, vejo sinais desses clusters surgindo. No futuro, poderão se conectar, como ilhas formando um arquipélago.
Hoje, esses agrupamentos, ainda incipientes, estão em áreas como Praça Mauá-Presidente Vargas, Visconde de Inhaúma, Sacadura Cabral; Cinelândia, Senador Dantas, Marrecas, Passeio, Lapa; Beira-mar/Santos Dumont; Porto Maravilha (Saúde, Gamboa, Santo Cristo, Impa, Rodoviária); Bairro de Fátima/Cruz Vermelha e no entorno da Buenos Aires/Santana. Cada região tem sua personalidade: algumas nascem de retrofits (prédios comerciais transformados em residências), outras de projetos urbanísticos mais amplos, como o Porto Maravilha, e há aquelas que se expandem a partir de núcleos já residenciais, como Bairro de Fátima/Cruz Vermelha.
O que mais encanta é perceber os sinais de vida que surgem. Recentemente, vi um café aberto às 9h de domingo na Avenida Rio Branco, perto de prédios recém-reformados na Visconde de Inhaúma já habitados. As primeiras plantas nas janelas, moradores entrando nos edifícios, cenas simples, mas que simbolizam o início da volta da vida ao Centro. Ao longo dos armazéns do Porto, alguns corredores, que espero já sejam novos moradores, ou talvez moradores do pioneiro projeto do arquiteto Demetre Anastassakis, no Morro da Saúde, pouco conhecido.
A diversidade dos projetos é um ponto positivo. Muitos são de uso misto, com comércio e serviços nos andares térreos, facilitando o dia a dia dos moradores e atraindo quem circula pela região. À medida que mais pessoas ocupam esses espaços, crescem a oferta de serviços e a vitalidade do entorno. Fico curioso para ver como evoluirá a área próxima ao Impa e à Rodoviária, onde uma ruela arborizada, ligando o Impa aos prédios do entorno, já se destaca como oásis urbano. Não muito longe, o Terminal Gentileza surge como um dos projetos arquitetônicos mais inovadores da cidade, de onde se avista a Baía de Guanabara, a Serra dos Órgãos e uma relíquia industrial — uma bela chaminé de tijolos.
Para que essa transformação ganhe força, é fundamental a colaboração entre setor público e iniciativa privada. Segurança é essencial. O Centro do Rio já abriga infraestrutura, ativos culturais e naturais que merecem ser desfrutados por mais pessoas, oferecendo qualidade de vida a quem escolher viver ali.
Urbanistas, empresários, gestores culturais e moradores têm papel fundamental. Transformações urbanas levam tempo e exigem continuidade. Investimentos em andamento mostram o que está por vir e podem estimular novas iniciativas. Acompanhar de perto essa evolução — pedalando pelas áreas em transformação — é uma forma de observar uma história em construção e de se inspirar para contribuir com essas mudanças.
*José Augusto C. Fernandes é economista