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Chegou-me às mãos a primeira versão de um importante artigo de Guilherme Lambais e Nuno Palma, “How a nation was born: Brazilian economic growth, 1574–1920”, disponível no site do IEPE/Casa das Garças: https://iepecdg.com.br/wp-content/uploads/2026/03/regrowth_260328_155203.pdf. Trata-se de um esforço pioneiro de história econômica quantitativa: pela primeira vez, temos uma série de PIB per capita para o Brasil que começa no século XVI. Li o texto com admiração e, inevitavelmente, com discordâncias. O debate que se seguiu com Nuno Palma é o que me proponho aqui a relatar.
O que os autores fizeram
A pesquisa de arquivo por trás do artigo é, sem exagero, monumental. Lambais e Palma coletaram mais de 30.000 observações de preços e salários em fontes primárias espalhadas por Salvador, Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Porto Alegre — livros de contas de engenhos de açúcar, registros das Santas Casas de Misericórdia, inventários de conventos e mosteiros, arquivos municipais e nacionais. O período coberto vai de 1574 a 1920, o que permite, pela primeira vez, conectar a era colonial à República, numa série contínua.
A metodologia segue a tradição inaugurada por Robert Allen (2000): a partir de uma “cesta de subsistência” (barebones basket) adaptada aos padrões brasileiros — farinha de mandioca, carne, feijão, toucinho, sabão, pano de algodão, velas, azeite de lamparina e lenha —, os autores constroem um índice de preços e deflacionam os salários nominais de trabalhadores livres qualificados e não qualificados. O salário real assim obtido serve de insumo a um modelo de elasticidades de Engel que mapeia renda implícita em produto agrícola per capita, o qual é então escalado para o PIB per capita total por meio da participação da agricultura no emprego e de um diferencial de produtividade setorial. A escravidão entra no modelo pela via da demanda: escravizados são tratados como consumindo uma cesta fixa de subsistência, independentemente do crescimento dos salários livres, o que deprime a demanda efetiva agregada.
Os resultados são claros e, em linhas gerais, coerentes com o que a historiografia qualitativa já sugeria:
No plano internacional, o Brasil permaneceu por dois séculos emparelhado com a Europa ibérica e a América espanhola, enquanto Inglaterra, Estados Unidos e Suécia disparavam. Não houve colapso brasileiro, mas houve uma aceleração poderosa alhures que o Brasil não acompanhou.
Um resultado que merece destaque: no confronto com outras estimativas disponíveis (Goldsmith, Maddison, Contador-Haddad, Reis, e a série em Bacha-Tombolo-Versiani), é justamente a BTV que mais de perto segue a trajetória de Lambais-Palma ao longo de todo o período 1820–1920. As divergências existem — e são o tema do debate que relato a seguir —, mas são de ritmo e calibração em certos subperíodos, não de tendência geral.
O debate: salários livres numa sociedade escravista medem o PIB per capita?
Ao ler o artigo, ocorreu-me uma objeção central, que comuniquei aos autores. Nuno Palma respondeu, iniciando uma troca que reproduzo aqui em síntese.
Minha crítica principal foi a seguinte: numa sociedade escravista como a brasileira antes de 1888 — e especialmente antes de 1850, quando o tráfico negreiro ainda era intenso —, os salários dos trabalhadores livres não eram determinados pela produtividade do trabalho. Eram, antes, ancorados no custo de reprodução do trabalho escravizado.
A razão é simples. No Brasil escravista, não havia segmentação estanque do mercado de trabalho: livres e escravizados trabalhavam frequentemente lado a lado, no campo e nas cidades. A oferta de escravizados era, para usar a terminologia de Lewis, “ilimitada” — aos preços determinados pelo comércio atlântico — do século XVI até 1850. Nesse contexto de concorrência entre os dois tipos de mão de obra, o salário do trabalhador livre tendia a se aproximar do custo de manutenção e reprodução do escravizado, não refletindo necessariamente os ganhos de produtividade que porventura ocorressem. Esses ganhos, ao invés disso, eram apropriados pelos proprietários de escravos e pelos senhores de terra.
Os próprios dados de Lambais e Palma, a meu ver, confirmam esse ponto: é precisamente a partir de 1850, quando o tráfico é efetivamente interrompido e a oferta de escravizados começa a se tornar inelástica, que os salários dos trabalhadores livres passam a crescer com maior vigor. Antes disso, na primeira metade do século XIX, período em que a série BTV registra crescimento de cerca de 0,75% ao ano, Lambais-Palma encontram apenas 0,35%.
Minha conclusão foi, portanto, que o artigo estima não a evolução do PIB per capita — o que exigiria metodologia complementar, apoiada em dados de produtividade das fazendas, de valorização dos capitais empregados e das produções setoriais —, mas antes a trajetória do padrão de vida do trabalhador livre.
A resposta de Palma foi dupla. Primeiro, no plano metodológico: o modelo não é uma simples extrapolação de salários, mas um sistema completo de elasticidades que incorpora preços relativos, composição da força de trabalho e diferencial de produtividade setorial. A escravidão entra explicitamente via correção da demanda efetiva. A série não é, portanto, equivalente a uma medida do padrão de vida do trabalhador livre.
Segundo, no plano teórico: em Lambais & Palma (2023), a escravidão não é apenas um mecanismo distributivo que comprime salários abaixo da produtividade — é um mecanismo que gera uma armadilha de baixa tecnologia e baixa produtividade. Num modelo de directed technical change com equilíbrios múltiplos, salários baixos são parte do próprio mecanismo que mantém a produtividade baixa. Portanto, a série não estaria superestimando a estagnação: ela estaria captando uma estagnação real da produtividade, não apenas da distribuição.
Minha réplica foi reconhecer a elegância do modelo teórico, mas apontar sua circularidade: a série é construída a partir dos salários, e então invoca-se um modelo em que salários baixos implicam produtividade baixa para justificar que a série captura corretamente a produtividade. Para quebrar essa circularidade, seria necessário demonstrar que a produtividade permanecia baixa por alguma evidência independente — produtividade agrícola por hectare, produção por trabalhador em atividades mensuráveis, ou algo análogo.
Somei a isso um argumento empírico adicional: o próprio influxo de escravizados no período 1820-1850 é evidência de crescimento da produtividade. A demanda por escravizados cresceu nesse período — cerca de dois milhões foram importados entre 1800 e 1850 — mesmo com preços crescentes, o que, numa curva de oferta horizontal sujeita a choques, implica deslocamento da demanda. Demanda crescente a preços crescentes significa produtividade crescente e/ou melhoria das relações de troca. Melhoria das relações de troca é equivalente, do ponto de vista macroeconômico, a um aumento da produtividade: o valor do produto por trabalhador cresce — mas esse ganho não é capturado na série de salários reais.
Palma apontou, nesse contexto, que os dados de um artigo anterior de Lambais & Palma (2023) mostram aumentos substantivos nos salários reais dos trabalhadores livres após as proibições do tráfico de 1808, 1831 e 1850 — da ordem de 24% já em 1808. Concordei que exagerei na mão ao dizer que os salários eram completamente insensíveis à produtividade — mas argumentei que essa própria evidência reforça meu ponto: os salários subiam quando o custo do tráfico encarecia, e não quando a produtividade crescia de forma autônoma. O mecanismo de ancoragem estava ativo, não ausente.
O acordo final foi honesto: concordamos em discordar, deixando a questão para ser dirimida pelos pareceristas da revista a que o artigo for submetido. De todo modo, mencionei que Guilherme Tombolo está construindo, em paralelo, uma série de PIB per capita para o século XIX pelo lado da oferta — à semelhança do que Claudio Haddad fez para 1900–1947 —, com resultados preliminares esperados para o segundo semestre. Essa série, baseada na produção setorial, deverá ajudar a discriminar entre as duas hipóteses: estagnação produtiva genuína, ou crescimento com excedente capturado pelos proprietários de escravizados e pela renda da terra.
Por que isso importa
O debate não é apenas técnico. Está em jogo a interpretação do século XIX brasileiro: foi ele um período de estagnação real, em que o Brasil não cresceu porque não havia produtividade crescendo, ou um período de crescimento real que beneficiou apenas os proprietários, deixando invisíveis nos salários os ganhos que ocorreram?
As duas interpretações têm consequências distintas para entender a concentração de renda que ainda hoje nos caracteriza. Se o crescimento existia mas era capturado pela escravidão, então a abolição não apenas libertou pessoas — ela redistribuiu estruturalmente o excedente. Se a estagnação era de produtividade, então a escravidão teria bloqueado o próprio dinamismo econômico, não apenas sua distribuição.
A resposta, claro, pode ser as duas coisas ao mesmo tempo — e em dosagens que uma série construída pelo lado da oferta possivelmente nos permitirá estimar com mais precisão.
Enquanto isso, a contribuição de Lambais e Palma permanece o que é: uma pesquisa de arquivo extraordinária, que coloca o Brasil no mapa da história econômica quantitativa de longo prazo, e que já provocou o tipo de debate que só as boas pesquisas conseguem provocar.