Casa das Garças

Brasil deve abrir a economia, diz Bacha

Data: 

16/07/2025

Autor: 

Edmar Bacha

Veículo: 

Valor Econômico

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Economista defende ideia de que tarifaço é oportunidade para o país adotar uma reforma liberalizante e ampliar seu comércio internacional

O crescente gasto público americano combinado com sucessivos déficits comerciais são grandes questões para economia dos Estados Unidos, disse nesta terça-feira, 15, Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real, sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Graças. Os aumentos de tarifas de importação pelo presidente Donald Trump buscam resolver esses dois problemas, mas de forma equivocada, disse Bacha.

“Em vez de ele procurar acordos comerciais vantajosos para o país, age como um valentão que dá tiro em bar. Mas o mundo vai sobreviver a Trump”, afirmou o economista em palestra na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio, com o tema “Pensar a economia mundial em tempos de Trump.”

Para Bacha, a configuração da economia global poderá sofrer uma transformação profunda, por causa do mandato do presidente americano. Em sua análise, o governo brasileiro deveria fazer uma “reforma liberalizante” no mercado nacional, não responder com política de reciprocidade.

Ao fim da palestra, perguntado se a política de reciprocidade, de elevar também tarifas, seria a resposta adequada, o economista foi taxativo: “Na verdade, sou da opinião totalmente oposta. Eu acho que a gente tem que aproveitar isso e fazer desse limão uma limonada”, afirmou. “Porque o Brasil é uma economia fechada, nossa indústria é muito pouco produtiva, estamos presos na armadilha da renda média, sem crescimento de produtividade”, detalhou.

“E agora o Trump nos oferece uma oportunidade de fazer uma reforma liberalizante no nosso comércio exterior. Para modernizar e aumentar a produtividade da economia. Ou seja, a gente deveria ter respondido ao Trump, não é com mais tarifa, não, é com menos [tarifa]”, disse. Bacha explicou que, no momento, a indústria brasileira não consegue ser mais competitiva, “porque trabalha em uma economia fechada, sem capacidade de utilizar tecnologia, insumos e bens de capital do estrangeiro”. “Tem muitas possibilidades de intercâmbio que a gente não explora devidamente”, afirmou.

A palestra de Bacha faz parte do ciclo de conferências “Pensar”, sob a coordenação do presidente da ABL, o jornalista Merval Pereira. Bacha tomou posse na ABL há oito anos, em 2017, na cadeira número 40, antes ocupada pelo jurista Evaristo de Moraes Filho, morto em 2016. No evento desta terça-feira (15), o economista começou a fala com um amplo panorama da evolução da economia global, desde 1950 até os tempos de hoje. No entendimento de Bacha, a característica mais importante foi que, nesse período, “o mundo tornou-se cerca de cinco vezes mais rico” em quase 80 anos pós-segunda guerra mundial. “Foi um período de enorme prosperidade”, afirmou.

Atualmente, continuou, o cenário global encontra-se diverso, com quadro de menor desigualdade de renda; menor fecundidade; maior ritmo de imigração e de crescimento de ativos bancários e de comércio global. A Ásia, salientou, surgiu como um grande player global, capitaneada pela China. Entretanto, afirmou, mesmo com indícios de uma “erosão na hegemonia americana” no ambiente econômico global, uma coisa não mudou: o dólar continua preponderante. “Cerca de 90% de comércio global continua sendo feito em dólar. É a moeda que todo mundo quer em suas transações internacionais”, disse.

O fato é que o fortalecimento do dólar faz com que os produtos americanos fiquem mais caros em relação ao resto do mundo, explicou. Significa que os Estados Unidos não conseguem exportar tanto quanto importam. E dessa forma esse movimento faz com que se crie um déficit comercial elevado para os Estados Unidos. E essa realidade se dá em um quadro no qual os gastos públicos do país operam em trajetória crescente.

Bacha alertou ainda para alguns cenários possíveis para a economia mundial, em um mundo pós-Trump. O primeiro cenário citado foi um “retorno à globalização”, hoje sob ataque por tarifas levantadas pelos Estados Unidos. O segundo cenário seria uma “globalização sem os Estados Unidos”, com o mundo se reorganizando economicamente sem os EUA.

E o terceiro cenário, acrescentou, seria um ambiente de “radicalização”, com o mundo se dividindo em três grandes blocos, comandados por União Europeia, China e Rússia. Mas esse último cenário guarda um “risco compartilhado”, de nova guerra mundial, “um risco que está conosco desde sempre”, nas palavras de Bacha. No entanto, ele comentou que esses três cenários seriam menos prováveis diante de outra possibilidade. Um cenário alternativo que dependeria da mudança de rumo econômico da China.

A China, explicou, investe muito e consome no mercado interno, e promove uma “política mercantilista agressiva”, escoando a produção em diferentes países. “Se a China mudasse o regime e [detivesse] menor peso em investimento e mais consumo [interno], poderia ocorrer um crescimento global multipolar mais equilibrado.”

 

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