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A economia mundial caminha para uma reorganização em múltiplos polos econômicos, abandonando a hegemonia de um único país. Esta é a principal tese defendida pelo economista Edmar Bacha, um dos formuladores do Plano Real, em palestra intitulada “Pensar a Economia Mundial em Tempos de Trump” e conferida na Academia Brasileira de Letras (ABL). A reorganização pode ser benéfica, segundo Bacha, desde que a China mude sua estratégia econômica de forte investimento e fraco consumo interno para um modelo mais focado na inovação e no mercado doméstico.
PhD em Economia pela Universidade de Yale e brasileiro que mais publicou trabalhos acadêmicos no exterior, Bacha fez uma digressão sobre as tendências que marcaram a economia global desde 1950. Ele mostrou que, em 2024, o mundo estava cinco vezes mais rico do que era há 74 anos, com um salto do PIB per capita em dólar de um patamar inferior a US$ 4.000 para cerca de US$ 17.000.
No mesmo período, a população mundial mais do que triplicou e se urbanizou. A taxa de fecundidade, por sua vez, despencou e agora, com exceção da África, está abaixo da taxa de reposição. Isso significa que a população global envelheceu e continuará envelhecendo. Em 2022, 10% da população tinha mais de 65 anos. Em 2050, esse contingente deve ficar próximo de 16%.
Edmar Bacha sustenta que a globalização foi um fator-chave no processo de geração de riqueza. O comércio mundial triplicou como porcentagem do PIB global entre 1950 e 2008. Desde então, porém, vem perdendo dinamismo. Ao mesmo tempo, a financeirização da economia se aprofundou, com os ativos bancários triplicando em proporção do PIB mundial entre 1950 e 2008, quando o capitalismo sofreu a última grande crise global.
Outras tendências abordadas por Bacha incluem o aumento da imigração para países ricos. Em 1950, os imigrantes representavam 6% da população das nações do G-7, o grupo das sete maiores economias. Em 2020, esse percentual mais do que dobrou.
Outros fatos marcantes da história desde o pós-guerra incluem a forte redução da pobreza global, impulsionada em grande medida pelo desenvolvimento econômico acelerado da China, a diminuição da desigualdade de renda entre os países da OCDE e do restante do planeta e a ascensão da Ásia, que se tornou região dominante no PIB mundial. Essas mudanças no eixo produtivo também contribuíram para o crescimento das emissões globais de gases de efeito estufa.
Bacha trata, então, da “erosão da hegemonia econômica dos EUA”. Embora os americanos ainda tenham a maior renda per capita entre os países do G20, a China já tem o maior PIB quando se considera a paridade do poder de compra, isto é, quando se levam em conta as diferenças do custo de vida entre as economias.
Nesse ranking, o Brasil aparece em 9º lugar, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). No critério renda per capita, em 18º, atrás, por exemplo, de México, Argentina, Rússia e Turquia.
Outro dado relevante: a China já se igualou aos EUA em termos de participação no comércio mundial. Na verdade, nos anos recentes, superou um pouco e mostra tendência de aumento, enquanto a dos EUA é de queda. A participação do dólar nas reservas cambiais internacionais tem diminuído, embora ainda domine as transações com moeda.
Bacha aponta problemas estruturais na economia americana, como o forte crescimento da dívida pública, o déficit comercial persistente e o aumento da concentração de renda desde 1970. A parcela de imigrantes na população dos EUA também está se aproximando dos picos do século XIX.
Ao analisar os cenários pós-Trump, Bacha descarta três possibilidades: a de Trump ser uma anomalia e a globalização retornar; a de uma globalização sem os EUA (improvável dado o papel financeiro e militar americano); e a de uma nova guerra fria entre três blocos (EUA, União Europeia, China/Rússia) — Bacha considera isso pouco provável devido à interdependência global. Ele cita riscos “existenciais” que exigem ação coletiva, como a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, o aquecimento global, o avanço da Inteligência Artificial e o envelhecimento populacional.
O futuro, para o economista brasileiro, dependerá em grande parte do comportamento da China, cuja economia é marcada por desequilíbrios estruturais, como baixo consumo privado, alto investimento e um superávit externo elevado. A produtividade marginal do capital na China tem diminuído, o que significa que novos investimentos estão gerando cada vez menos crescimento.
Bacha prevê dois cenários possíveis para a economia global. No primeiro, a China mantém seu regime de forte investimento, consumo doméstico fraco e política mercantilista agressiva. Isso levaria a uma tendência de regionalização, protecionismo e menor crescimento global.
No segundo cenário, a China muda seu regime, diminuindo a dependência de investimentos e dando mais peso ao mercado interno e à inovação (algo que já está acontecendo). Isso resultaria em um crescimento global multipolar mais equilibrado.
Em entrevista recente ao site Vero Notícias, Bacha reforçou a tese de que a trumpeconomics e o protecionismo americano, em vez de se espalharem, não estão gerando uma reação recíproca de outros países como ocorreu na década de 1930, quando as economias americana e mundial sofreram forte retração após rodada de fechamento mútuo do comércio. Para o economista, há uma percepção de que colocar tarifa nas exportações americanas é “dar um tiro no pé”.
Segundo o economista, os Estados Unidos, arquitetos da ordem liberal global que predominou no hemisfério ocidental no pós-guerra e em todo o mundo depois do fim da União Soviética, no início da década de 1990, estão desmontando seu próprio legado. O resultado dessa equação, diz ele, é imprevisível, já que, ao mesmo tempo em que a tarifa atua como freio ao crescimento, há um boom de investimentos em Inteligência Artificial que acelera a economia americana.