Casa das Garças

Os traços do arquiteto: o Cais das Artes

Data: 

02/09/2025

Autor: 

Paulo Hartung

Veículo: 

O Estado de São Paulo

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Paulo Mendes da Rocha (1928-2021) acaba de ganhar um livro especialíssimo sobre sua trajetória. Editado pela Casa da Arquitectura, entidade à qual Paulo Mendes doou seu acervo, Geografias Construídas visa a “estimular o diálogo em torno dos princípios, da estética e da ética” do arquiteto, o segundo brasileiro a ganhar o Prêmio Pritzker, depois de Oscar Niemeyer.

Na publicação, organizada por Jean-Louis Cohen e Vanessa Grossman, o diretor-executivo da Casa da Arquitectura, Nuno Sampaio, é categórico ao descrever o capixaba: “Quem conhecia verdadeiramente o Paulo reconhecia-lhe uma capacidade superior de ver para lá da espuma dos dias. Assim era ele e sua arquitetura, feita não pelas circunstâncias do momento, mas a partir do entendimento da própria existência humana”.

A experiência vivida como base para entender e transformar o mundo era mesmo sua régua para existir, o que pudemos testemunhar ao longo da formulação e da viabilização do Cais das Artes, obra monumental por ele desenhada para sua cidade natal, fundamento de sua jornada, conforme recorda Daniele Pisani em seu artigo no livro: “‘Vitória, porto de mar. Foi ali que eu nasci’, repetia frequentemente”.

“Quem nasce num porto de mar tem uma educação peculiar. Há uma visão das virtudes da natureza, dos seus fenômenos, mas também das engenhosidades humanas. (…) Quem nasce num porto de mar tem tudo para ser sábio. Acostuma-se a ver a natureza não como uma simples paisagem, mas sim como um conjunto de fenômenos”, cita Pisani.

Filho da educadora Angelina Derenzi e do engenheiro Paulo Menezes Mendes da Rocha, o arquiteto “testemunhou os trabalhos nas instalações do porto de Vitória e em outros portos”, pontua Vanessa Grossman, que também traz uma fala reveladora de Paulo Mendes: “Sou um arquiteto que acredita na técnica, na capacidade do homem de transformar a natureza, essa é a memória da infância que eu tenho”.

Como coordenadora do processo de constituição do Cais das Artes, pude testemunhar de forma bem próxima o trabalho de criação desenvolvido por Paulo Mendes da Rocha. A antiga relação com a cidade, marcada em seu inconsciente, possibilitou um excepcional diálogo entre as referências do menino e os propósitos do arquiteto, o que está francamente simbolizado na obra. Num lugar em que as artes estejam incorporadas ao cotidiano, talvez tenhamos uma realidade menos beligerante. Este foi o motor do meu envolvimento neste projeto grandioso e ousado, por entender que bons frutos são colhidos da ligação da Psicanálise com a Arte.

Para que essa obra pudesse ser iniciada, passaram-se quase quatro anos de sonhos, estudos, superações e desmonte de muitos obstáculos. De conversa em conversa, de imaginações a visões, a ideia começou a tomar corpo. Com a pressa de quem suspeita que a inspiração tivesse chegado, Paulo Mendes, num de nossos diversos encontros, riscou os traços da materialidade imaginada num guardanapo de papel. A ideia se fez projeto. Da urgência do papel que estivesse à mão ao planejamento da prancheta e dos cálculos digitais, o Cais das Artes traduz a inspiração vulcânica, a vontade do belo. Paulo Mendes da Rocha pôde, durante o processo de criação, conjugar a técnica, os cálculos e o útil para materializar a beleza. Com arquitetura fez arte.

Como governador do Estado do Espírito Santo à época, destaco que o início das obras foi precedido por um intenso e vívido tempo de obra intelectual e política para colocarmos de pé o projeto do Cais das Artes. Concomitantemente ao processo criativo, mobilizamos esforços, diálogos e parcerias com poderes públicos para viabilizar a instalação do conjunto arquitetônico e, com a iniciativa privada, a contratação do projeto junto a Paulo Mendes da Rocha. Em todo esse percurso, houve a contribuição generosa e ímpar de um outro Paulo capixaba, Paulo Herkenhoff, cachoeirense que foi curador-adjunto no MoMA de Nova York.

No texto dedicado ao Cais das Artes no livro, Ana Vaz Milheiro considera que o “terreno em esplanada, emoldurando a paisagem da cidade histórica e moderna”, abriga um “edifício anfíbio que, com uma métrica segura, desafia a paisagem formada pelos tufos de Mata Atlântica, enquanto resolve o encontro entre o urbanismo que a colonizou e a água. Dois programas monumentalizados e compactos, museu e teatro, equilibram-se num vazio que desenham despido. Num futuro que se deseja próximo, a sua apropriação irá inaugurar um tempo novo”.

Nesse sentido, sobre a efetivação do projeto, em diálogo com palavras de Paulo Mendes da Rocha, a autora destaca: “Beneficiará do ‘exercício da imaginação’ proporcionado por uma terra que ‘não termina onde está a borda dela com a água’, prosseguindo até onde a vista alcança, incitada pelo movimento das embarcações”.

Nuno Sampaio recorda uma frase de que o arquiteto “gostava especialmente: ‘Sabemos que vamos morrer, mas não viemos ao mundo para morrer, mas para continuar’”. Que o Cais das Artes seja marca da presença altiva, inspiradora e transformadora de Paulo Mendes da Rocha, ajudando o Espírito Santo e o Brasil a se reinventarem continuamente, para além das margens dos tempos.

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