Casa das Garças

A tia de todas as reformas

Data: 

27/04/2026

Autor: 

Gustavo Franco

Veículo: 

O Globo e O Estado de São Paulo

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De todas as reformas que o país vem discutindo nos últimos anos, com as tranqueiras que se conhece, a mais transcendente e, talvez por isso mesmo, a que registrou menos avanços, é a da abertura.

Era para ser a mãe, ou a rainha de todas as reformas pró-mercado. Uma opção definidora. Mas como não andou como as outras, as quais também não foram assim tão ousadas, o Brasil ficou muito para trás.

A Ásia surfou a onda da globalização, da qual o Brasil resolveu se afastar, preferindo a substituição de importações e a busca da autossuficiência. Não foi uma boa estratégia.

A Coreia do Sul, por exemplo, tinha renda per capita parecida com a do Brasil em 1980, na faixa do equivalente a 15% da renda per capita dos EUA. Em 2017, o Brasil chegou a 16,5%, mas a Coreia do Sul ficou rica, chegando a 53%.

Perdemos esse bonde, simples assim.

E agora?

Um dos legados importantes dessa nossa estratégia de “fechadura” foi trazer para dentro do país as empresas estrangeiras que ficaram impedidas de exportar para o Brasil. O capital estrangeiro veio para dentro de casa.

Em outras palavras, mais técnicas, o investimento direto estrangeiro substituiu o comércio exterior. E o fez em uma escala que talvez apenas tenha se tornado visível nos anos 1990, quando o Banco Central do Brasil (BCB) passou a publicar, a cada cinco anos, os resultados de um Censo para o Capital Estrangeiro no Brasil.

O BCB coleta informações contábeis de todas as empresas com participação estrangeira operando no Brasil. Em 2020, pouco mais de 17 mil empresas com mais de 10% de participação acionária estrangeira responderam ao questionário do censo1.

Essas empresas empregavam exatas 2.990.035 pessoas em 2020, equivalente a cerca de 3,2% da população ocupada, e produziam o equivalente a 35% do PIB brasileiro. O peso desses números é impressionante: os outros trabalhadores ocupados (96,8% do total) produziram os outros 65% do PIB. Fazendo as contas, o diferencial de produtividade entre uma pessoa trabalhando para o grupo do censo e outra empregada em outras empresas é de dezessete vezes.

Antigamente se dizia que o desenvolvimento econômico consistia em transferir trabalhadores do setor atrasado (naqueles tempos heroicos era o agro) para a indústria. Pois é. A mesma tese transplantada para hoje seria a de transferir pessoas do Brasil fechado para o Brasil internacionalizado, onde a produtividade do trabalhador é dezessete vezes maior.

Essa é a pauta da abertura.

(1) Os resultados podem ser consultados em bcb.gov.br/publicacoes/relatorioid

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