Casa das Garças

Uma viagem à China: educação em Xangai, Suzhou e Hangzhou

Data: 

06/11/2026

Autor: 

Simon Schwartzman

Veículo: 

Substack

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Estive na China entre 20 de outubro e 2 de novembro de 2026 a convite da Faculdade de Educação da East China Normal University (ECNU), em Xangai, que, para minha surpresa, decidiu me incluir entre os cinco agraciados da terceira edição do Global Award for Innovation in Education Research Methods, concedido anualmente a pesquisadores chineses e de outras partes do mundo. Além da ECNU, tive a oportunidade de visitar e fazer apresentações nas faculdades de educação das universidades de Soochow, na cidade de Suzhou, e de Zhejiang, na cidade de Hangzhou.

Havia estado na China uma única vez em 1986, em Beijing, quando visitei a Cidade Proibida e me impresionei pelas milhares de pessoas que circulavam pelas ruas em bicicleta, vestidas em cores cinzas e azuladas. Agora as cidades que visitei são metrópoles moderníssimas habitadas por uma grande classe média que se veste de modo elegante e colorida, circula em carros e motocicletas elétricas, e viaja pelo país na maior malha de trens de alta velocidade que existe, em condições de total segurança. Este texto tem por objetivo colocar no papel um relato sumário do que consegui ver e aprender do sistema educacional da China, usando para isto a colaboraçao de Claude, como assistente de IA.

O prêmio

O Global Award foi criado em 2024, por ocasião do décimo aniversário do Fórum de Pesquisa Educacional Empírica organizado pela ECNU, e desde 2025 é concedido em conjunto com a Fundação Tin Ka Ping, de Hong Kong. São cinco agraciados por ano, sem restrição de nacionalidade ou disciplina. O primeiro grupo, de 2024, incluiu o sociólogo britânico Stephen J. Ball e Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE e principal responsável pelo PISA, além da socióloga americana Annette Lareau, do psicólogo australiano Herb Marsh e do economista chinês Min Weifang. O segundo, de 2025, incluiu a canadense Ruth Hayhoe, da Universidade de Toronto, uma das principais especialistas ocidentais em educação chinesa, e Manabu Sato, da Universidade de Tóquio, além de Stephen Raudenbush (Universidade de Chicago), Rupert Wegerif e Wang Shanmai (Universidade Normal de Pequim). Na edição de 2026 estavam, além de mim, Ellen Goldring, decana de pesquisa do Peabody College da Universidade Vanderbilt e especialista em liderança escolar; Krista Muis, professora de psicologia educacional da Universidade McGill; e dois professores chineses, Lingyuan Gu, da Academia de Ciências da Educação de Xangai, e Leslie Nai Kwai Lo, decano fundador da Faculdade de Educação da Universidade Chinesa de Hong Kong.

A ECNU

A East China Normal University foi criada em outubro de 1951 como a primeira universidade normal, isto é, de formação de professores, da República Popular da China. Nasceu da fusão de duas universidades privadas de Xangai, a Great China University, ou Daxia, fundada em 1924, e a Kwang Hua, fundada em 1925, com professores vindos de Fudan, Tongji e outras instituições. Foi parte da grande reorganização dos anos 1950, quando a China adotou o modelo soviético de universidades especializadas. Hoje a ECNU é uma universidade de pesquisa abrangente, com cerca de 38 mil estudantes e mais de 4 mil docentes. Está entre as universidades do programa nacional “Double First-Class” de formação de universidades de elite e é parceira da NYU Shanghai, a primeira universidade sino-americana do país. Mas a formação de professores continua sendo sua marca principal.

A Faculdade de Educação foi formada em 2014 pela reunião de todas as unidades da universidade dedicadas à educação: a antiga Escola de Ciências da Educação, a de educação infantil e especial, o departamento de administração educacional, o centro nacional de formação de diretores de escolas secundárias do Ministério da Educação, entre outras. São 27 unidades de ensino e pesquisa e alguns milhares de estudantes, a maioria em mestrado e doutorado. A faculdade de educação da ECNU é considerada, junto com a da Universidade Normal de Pequim, a mais forte da China, e edita desde 2017 a ECNU Review of Education, um dos primeiros periódicos acadêmicos em inglês autorizados no país.

A virada empírica

O Fórum de Pesquisa Educacional Empírica, conhecido pela sigla FEER, é realizado anualmente pela faculdade desde 2015. Durante muito tempo, a pesquisa em educação na China foi predominantemente filosófica, normativa ou especulativa, como em boa parte da América Latina. O fórum foi criado para promover o que os organizadores chamam de “virada empírica”: pesquisas baseadas em dados, medição e métodos quantitativos e qualitativos rigorosos. Desde 2017, ele também premia os melhores trabalhos empíricos publicados no país. Na brochura que apresenta os agraciados deste ano, o presidente do comitê de seleção do prêmio, professor Yuan Zhenguo, diz que a pesquisa empírica já se tornou um requisito fundamental para a formulação de políticas educacionais na China. Ele acrescenta que, ao elevá-la a um novo patamar, o país poderá construir um “sistema autônomo de conhecimento” em educação. O prêmio faz parte dessa estratégia: trazer pesquisadores de fora para dialogar com a pesquisa chinesa, e ao mesmo tempo marcar a passagem, como diz ele, da “aplicação e importação” para a “inovação independente”.

As questões viajam, mas as respostas são locais

Nas três universidades, falei sobre a educação básica e superior na América do Sul, tema em que tenho trabalhado como coeditor, com Cristian Cox, de Education in South America, uma obra em dois volumes a ser publicada em 2027 com capítulos escritos por especialistas de dez países da região. Na ECNU, a palestra tratou do ensino superior latino-americano; em Soochow e em Zhejiang, das políticas de educação na região e no Brasil.

A mensagem principal foi que, embora os sistemas educativos dos diversos países da região sejam diferentes entre sí, e todos muito diferentes da China, todos eles tratam de responder a um mesmo conjunto de questões: como universalizar o acesso à educação, como passar das simples questões de acesso às de qualidade e como reduzir a desigualdade que é inerente aos sistemas educacacionais. A América do Sul conseguiu, nas últimas décadas, colocar praticamente todas as crianças na escola e ampliar muito o acesso ao ensino superior, mas não conseguiu garantir que os estudantes aprendessem como deveriam: o acesso se universalizou, a aprendizagem não. Mostrei também como as políticas educacionais da região oscilaram ao sabor dos ciclos políticos, como a expansão do ensino superior se deu em boa parte pelo setor privado e como os sistemas de avaliação, como o SAEB e o PISA no Brasil, tornaram visíveis as desigualdades que as estatísticas de matrícula escondiam. São temas que também estão presentes na China, embora em outra escala e com outros resultados.

A educação na China

O sistema educacional chinês é o maior do mundo: em 2025 eram cerca de 280 milhões de estudantes em 440 mil escolas, segundo o boletim estatístico anual do Ministério da Educação. Suas grandes etapas são parecidas com as nossas, mas os filtros entre uma etapa e outra são muito mais rígidos e decisivos.

Para quem vem de uma língua alfabética, a primeira diferença está na alfabetização. O chinês escrito usa milhares de caracteres, cada um correspondendo a uma sílaba com significado. Desde 1958, o país usa também o pinyin, um sistema de transcrição da pronúncia do mandarim em letras latinas, com marcas para os quatro tons. O pinyin não substitui os caracteres. Ele é uma ferramenta para aprender a pronúncia padrão, consultar dicionários e, hoje, digitar no celular e no computador.

No primeiro ano, as crianças aprendem o pinyin em poucas semanas, em paralelo com os primeiros caracteres. Os livros didáticos nacionais unificados, adotados a partir de 2017, passaram a apresentar alguns caracteres simples antes do pinyin, invertendo a ordem tradicional. Depois disso, a alfabetização se torna um processo longo de memorização e cópia. O padrão curricular prevê que a criança reconheça cerca de 1.600 caracteres ao fim do segundo ano e seja capaz de escrever 800. Ao fim do primário, no sexto ano, a meta é de 3.000 caracteres reconhecidos e 2.500 escritos, o suficiente para ler um jornal. O contraste com o Brasil é forte: aqui uma criança deveria estar alfabetizada em dois anos e mesmo assim muitas não estão. Lá a alfabetização completa leva todo o ensino primário, mas é tratada como uma tarefa sistemática e cobrada de todos. Uma preocupação recente é que, por digitarem em pinyin, muitos jovens já não conseguem escrever à mão caracteres que sabem ler.

A educação obrigatória, estabelecida por lei em 1986, tem nove anos: seis de primário e três de secundário inferior. Em 2025, 96% das crianças completavam esse ciclo, e a taxa bruta de matrícula no ensino médio chegava a 92%. A educação infantil também se universalizou, com 93% de atendimento.

O primeiro grande filtro é o zhongkao, o exame ao fim do nono ano. Ele distribui os alunos entre o ensino médio geral, que leva ao gaokao e à universidade, e o ensino médio técnico-profissional. Durante décadas, a política oficial foi manter essas duas redes em tamanho “aproximadamente igual”, o que significava mandar metade dos jovens para o ensino profissional, em geral os de pior desempenho. A pressão das famílias contra essa divisão levou, em 2022, a uma reforma da Lei de Educação Profissional que flexibilizou a proporção. Desde então o ensino médio geral vem crescendo e recebeu 10,7 milhões de novos alunos em 2025. O medo de ficar do lado errado desse corte alimentou por anos uma enorme indústria de aulas particulares, que o governo proibiu de operar com fins lucrativos em 2021, na política conhecida como “dupla redução”.

O PISA

Xangai, Suzhou e Hangzhou ficam no delta do rio Yangtzé, a região mais rica e urbanizada da China, que reúne a municipalidade de Xangai e as províncias de Jiangsu e Zhejiang. É também a região que mais chama atenção internacional pelos resultados educacionais. O PISA é um programa internacional de avaliação do desempenho de estudantes de 15 anos que estão concluindo o equivalente ao ensino fundamental brasileiro. Xangai entrou no PISA em 2009 e ficou em primeiro lugar nas três áreas de avaliação, matemática, ciências e leitura, e repetiu o feito em 2012. O resultado surpreendeu o mundo e levou, entre outras coisas, o governo britânico a criar um programa de intercâmbio para trazer professores de matemática de Xangai às escolas inglesas. Desde 2018, a China participa com um conjunto de quatro jurisdições: Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang. Em 2018, esse grupo ficou em primeiro lugar nas três áreas. No PISA 2025, divulgado em setembro passado, a região voltou a liderar em matemática e ciências e ficou em segundo em leitura, atrás de Singapura. A comparação com o Brasil, na tabela abaixo, dá a medida da distância.

A diferença de 235 pontos em matemática entre a China e o Brasil equivale a muitos anos de escolaridade. Segundo os dados da OCDE, apenas 1,8% dos estudantes das quatro jurisdições chinesas ficaram abaixo do nível mínimo nas três áreas ao mesmo tempo, contra 19,7% na média da OCDE. No Brasil, só 28% dos estudantes alcançaram o nível básico em matemática.

Os números precisam ser lidos com cuidado. Os dados não são da China como um todo, e sim de suas quatro regiões mais ricas e escolarizadas. Há também dúvidas antigas sobre quantos jovens de 15 anos ficam fora da amostra, especialmente os filhos de migrantes internos que não têm registro de residência (o hukou) nas cidades onde vivem. Ainda assim, ninguém discute que essas regiões têm sistemas escolares de altíssimo desempenho. Uma parte da explicação está na organização do trabalho docente: os professores de Xangai trabalham em grupos de ensino e pesquisa por disciplina, observam as aulas uns dos outros, preparam aulas em conjunto e têm uma carreira com etapas definidas.

O gaokao

O segundo filtro é o gaokao, o exame nacional de acesso ao ensino superior, realizado durante dois ou três dias em junho. Em 2026 houve 12,9 milhões de inscritos. É o equivalente ao nosso ENEM, mas com peso social muito maior: a nota define quase sozinha a universidade e o curso em que o estudante poderá entrar. As vagas são distribuídas por cotas provinciais, e as melhores universidades reservam muitas vagas para os estudantes da própria província. Com isso, a mesma nota vale mais em Pequim ou Xangai do que em uma província populosa do interior. Xangai e Zhejiang foram as primeiras a testar, a partir de 2014, uma reforma que manteve chinês, matemática e língua estrangeira como obrigatórias e permitiu que o estudante escolha as demais disciplinas do exame, aproximando-o de um modelo com itinerários formativos, que o Brasil resiste a implantar.

O sistema de ensino superior

A China tem hoje o maior sistema de ensino superior do mundo. Em 2025, havia 3.167 instituições de ensino superior, e o total de estudantes em todas as modalidades chegava a 48,7 milhões. A taxa bruta de matrícula é de 61,3%, mais que o dobro da de 2012 e acima da brasileira.

O sistema tem duas grandes vertentes. A acadêmica reúne 1.278 instituições que oferecem bacharelado, com 21,4 milhões de alunos. A vocacional reúne 1.554 escolas técnicas de nível superior (gaozhi), de três anos, semelhantes aos nossos cursos superiores de tecnologia, com 17,7 milhões de alunos. A elas se somam as “universidades profissionais”, criadas a partir de 2019, que oferecem bacharelados aplicados de quatro anos. Eram 87 em 2025, com cerca de 520 mil alunos, e o governo as está ampliando rapidamente: no início de 2026 já passavam de cem. Na prática, quase metade dos estudantes de graduação está no ramo vocacional. A pós-graduação tem 4,3 milhões de alunos, dos quais 750 mil de doutorado, e cresce rapidamente: em 2025 foram 1,44 milhão de novos alunos de mestrado e doutorado, e pela primeira vez se formaram mais de 1 milhão de mestres e 100 mil doutores em um único ano.

Quase todas as instituições são públicas, mas mantidas por níveis diferentes de governo. Um grupo pequeno, de pouco mais de cem, depende diretamente do governo central. Cerca de 75 delas estão ligadas ao Ministério da Educação, entre elas a ECNU e a Universidade de Zhejiang, e as demais a outros ministérios. A grande maioria é mantida pelas províncias e por algumas grandes cidades. Mesmo as públicas cobram anuidades, ainda que moderadas.

Independentemente de quem as mantém, o governo central escolhe um grupo de universidades para receber recursos adicionais e se aproximar de padrões internacionais de desempenho. Hoje esse grupo é definido pelo programa “Double First-Class” (algo como “duplo padrão mundial”: universidades e áreas de conhecimento de nível internacional). Ele reúne 147 instituições, que formam, na prática, a elite do sistema. Isso inclui algumas universidades provinciais, como a de Soochow. No topo estão as nove universidades da C9 League, entre elas Tsinghua, Pequim, Fudan, Jiao Tong de Xangai e Zhejiang, que recebem os estudantes com as melhores notas do gaokao e a maior parte dos recursos para pesquisa.

Existe também um setor privado, que começou a crescer nos anos 1990. Ele tem hoje 831 instituições, cerca de um quarto do total, e quase 11 milhões de alunos, pouco mais de um quarto das matrículas de graduação. São, em sua maioria, faculdades e escolas técnicas sem pesquisa, e nenhuma delas está entre as universidades de elite. Há ainda algumas universidades criadas em parceria com instituições estrangeiras, como a NYU Shanghai, a Xi’an Jiaotong-Liverpool e a Duke Kunshan. As duas últimas ficam na região de Suzhou.

Soochow e Zhejiang

As duas outras universidades que visitei têm histórias que resumem bem o percurso do ensino superior chinês no século XX: fundadas como instituições modernas no fim do Império, desmembradas segundo o modelo soviético nos anos 1950 e reconstruídas como universidades abrangentes a partir dos anos 1980 e 1990.

Universidade de Soochow. A Universidade Soochow original, em chinês Dongwu Daxue, foi fundada em 1900 por missionários metodistas americanos e se apresenta como a primeira universidade de estilo ocidental da China. Em 1952 ela foi dissolvida e sua sede deu lugar a uma escola normal, depois chamada Jiangsu Teachers College. Parte dos antigos professores e alunos recriou a universidade em Taiwan, onde existe até hoje uma Soochow University com o nome chinês original. Em 1982, a instituição de Suzhou recuperou o nome em inglês, mas não o chinês, e passou a se chamar Suzhou Daxue. Nos anos seguintes absorveu as faculdades locais de sericicultura, têxteis da seda e medicina.

Hoje é uma grande universidade da província de Jiangsu, da qual a cidade de Suzhou faz parte. Tem cerca de 48 mil estudantes e integra o programa Double First-Class. O antigo campus, com seus prédios de tijolo da época dos missionários e jardins no estilo clássico de Suzhou, é considerado um dos mais bonitos do país. A Escola de Educação fica no campus junto ao lago Dushu. Ela descende do departamento de educação da antiga escola normal e tem três departamentos: Educação, Psicologia e Educação Técnica. Abriga também um Instituto de Ensino Superior e centros de currículo, políticas educacionais e ciências da aprendizagem, além de doutorados em ensino superior e em economia da educação. O departamento de educação técnica chamou minha atenção: a formação de professores para o ensino profissional é uma lacuna antiga no Brasil.

Universidade de Zhejiang. A Universidade de Zhejiang tem origem na Academia Qiushi, criada em 1897 pelo prefeito de Hangzhou, Lin Qi, uma das primeiras escolas superiores de modelo moderno fundadas por chineses. Nos anos 1940, quando se refugiou no interior durante a guerra com o Japão, Joseph Needham a chamou de “Cambridge do Oriente”. Em 1952 foi desmembrada em quatro instituições especializadas: engenharia, agricultura, medicina e a Universidade de Hangzhou, herdeira das humanidades e da educação. Em 1998 as quatro foram reunificadas, formando uma das maiores e mais fortes universidades do país. Ela integra a C9 League e está no centro do ecossistema tecnológico de Hangzhou, que inclui a Alibaba e empresas de inteligência artificial como a DeepSeek, cujo fundador estudou ali.

O College of Education, que me recebeu em 29 de outubro, reúne departamentos de Educação, Currículo e Ciências da Aprendizagem e Ciências do Esporte, além de um Instituto de Liderança e Política Educacional e um centro de tecnologia educacional. Herdou a tradição pedagógica da antiga Universidade de Hangzhou, mas hoje funciona como faculdade de educação de uma universidade de pesquisa dominada pela engenharia e pela medicina. Essa diferença em relação à ECNU é instrutiva. Na ECNU, a educação é o núcleo histórico da universidade. Em Zhejiang, ela é uma área entre muitas, mais voltada para política educacional, ensino superior e ciências da aprendizagem do que para a formação de professores.

Universidades de classe mundial

Xangai, Suzhou e Hangzhou ficam no delta do rio Yangtzé, a região mais rica e urbanizada da China, que reúne a municipalidade de Xangai e as províncias de Jiangsu e Zhejiang. A região concentra boa parte das universidades chinesas de primeira linha. Não é por acaso que a obsessão contemporânea com as “universidades de classe mundial” começou justamente em Xangai. Em 2003, um grupo do Instituto de Ensino Superior da Universidade Jiao Tong de Xangai, liderado por Liu Niancai, publicou o Academic Ranking of World Universities (ARWU), que ficou conhecido como ranking de Xangai e foi o primeiro ranking internacional de universidades. O objetivo era medir a distância entre as universidades chinesas e as melhores do mundo, num momento em que o governo investia pesadamente, pelo Projeto 985, na criação de universidades de nível internacional. O ranking usa apenas indicadores de pesquisa: prêmios Nobel e medalhas Fields de ex-alunos e professores, pesquisadores altamente citados, artigos na Nature e na Science e volume de publicações indexadas. Não inclui pesquisas de reputação nem medida alguma de qualidade do ensino.

A trajetória chinesa nesse ranking é impressionante. Em 2016, só Tsinghua e a Universidade de Pequim estavam entre as cem primeiras. Na edição de 2026 eram dezesseis. Entre elas estão três universidades do delta: Zhejiang, empatada em 24º lugar, a própria Jiao Tong em 27º e Fudan em 41º. A Universidade de Nanjing, capital da província de Jiangsu, está em 70º. Zhejiang tem hoje o maior volume de publicações científicas indexadas do mundo, à frente de Harvard. Além delas, Xangai tem Tongji, na faixa de 101 a 150, a própria ECNU, na faixa de 201 a 300, e a NYU Shanghai. A Universidade de São Paulo, a mais bem colocada da América Latina, está na faixa de 101 a 150.

O ranking do Times Higher Education (THE), além da pesquisa, também inclui indicadores de ensino, reputação e internacionalização. Ele dá um quadro parecido, mas com diferenças instrutivas. Na edição de 2027, Zhejiang está em 34º lugar, Fudan em 38º, a Jiao Tong em 39º e Nanjing em 59º. Fudan, a universidade mais tradicional de Xangai e com forte presença nas humanidades e nas ciências sociais, fica à frente da Jiao Tong no THE e bem atrás dela no ranking de Xangai, que favorece as ciências naturais, a engenharia e a medicina. Nanjing também se sai melhor no THE. Em comparação USP aparece em 141º lugar, sua melhor posição histórica.

Há também experiências institucionais novas. Em Suzhou, o Parque Industrial abriga uma “cidade universitária” junto ao lago Dushu, com a Xi’an Jiaotong-Liverpool University, uma universidade sino-britânica, e, na vizinha Kunshan, a Duke Kunshan University. Em Hangzhou fica a Westlake University, uma universidade de pesquisa privada sem fins lucrativos criada em 2018, coisa rara no sistema chinês.

Os êxitos e problemas da educação chinesa

Os êxitos são evidentes. Em duas gerações, a China passou de um país de camponeses com escolaridade mínima para um sistema que universalizou a educação básica, colocou mais de 60% dos jovens no ensino superior e tem algumas das melhores universidades do mundo. Nas regiões mais desenvolvidas, praticamente todos os alunos aprendem o que se espera deles, e uma parcela grande chega aos níveis mais altos de desempenho. Isso resulta de investimento público sustentado, de uma cultura familiar que valoriza o estudo e de uma organização do trabalho docente centrada no ensino em sala de aula. A ideia de que avançar na vida depende do estudo e da competência demonstrada, que mencionei na minha fala lembrando meus pais imigrantes, é lá quase uma religião civil.

Os problemas são também visíveis, e muitos deles são discutidos abertamente pelos próprios chineses. O sistema de exames sucessivos produz uma competição intensa desde muito cedo, que os chineses chamam de neijuan, “involução”: todos se esforçam cada vez mais para disputar as mesmas posições, sem que o conjunto melhore. Os estudantes chineses estão entre os que mais horas passam estudando e os que relatam menor satisfação com a vida.

Os resultados de Xangai e Zhejiang não são os do interior rural. O sistema de registro de residência, o hukou, ainda limita o acesso dos filhos de migrantes às escolas e aos exames nas cidades onde seus pais trabalham. As cotas provinciais do gaokao favorecem quem nasceu nas grandes metrópoles.

A China tem cada vez menos crianças. Em 2025 o número de alunos no primário caiu em cerca de 4 milhões, quase 30 mil escolas fecharam e o país perdeu 150 mil professores. Isso coloca uma questão direta para as universidades normais, como a ECNU: o que fazer com um sistema de formação de professores mal dimensionado para uma população escolar que encolhe.

A empregabilidade é talvez a questão mais séria. A coorte que se formou em 2026 foi a maior da história, com cerca de 12,7 milhões de graduados, 480 mil a mais que no ano anterior. Em agosto, logo depois da formatura, o desemprego urbano entre os jovens de 16 a 24 anos que não estudam chegou a 18,9%, caindo para 18% em setembro. Entre os de 25 a 29 anos era de 7,5%, e na população geral, cerca de 5%.

O próprio governo descreve o problema como de “descompasso estrutural”: há empresas que não encontram trabalhadores qualificados e jovens que não encontram empregos compatíveis com o diploma. A manufatura avançada e os serviços técnicos pedem engenheiros e técnicos, enquanto muitos formados em administração, humanidades e outras áreas genéricas disputam um número limitado de vagas. Muitos adiam a entrada no mercado: 3,4 milhões se inscreveram para o exame nacional de mestrado em 2026, e os concursos para o serviço público batem recordes de candidatos. Parte dos jovens simplesmente desiste da corrida, no movimento que ficou conhecido como tang ping, “ficar deitado”. O Ministério da Educação responde com “microcursos” profissionalizantes em áreas como inteligência artificial e com a expansão dos bacharelados aplicados. Mas a crença de que o diploma da universidade de elite é o único caminho legítimo continua forte, e a desvalorização do ensino profissional, um problema que conhecemos bem no Brasil, se repete lá em outra escala.

Finalmente, o discurso oficial fala em construir um “sistema autônomo de conhecimento” chinês, no sentido de independência em relação aos modelos ocidentais. Nas conversas com professores e estudantes da ECNU, de Soochow e de Zhejiang, percebi o dinamismo da pesquisa educacional empírica que se faz hoje na China. A questão que fica, e que o PISA não mede, é se essa autonomia em relação ao exterior vem acompanhada da autonomia interna que permite à pesquisa questionar as políticas do próprio governo.

Em conclusão

Na minha fala de agradecimento, disse que as soluções não viajam, mas as perguntas sim. A China não oferece ao Brasil um modelo a ser copiado: sua história, sua organização política e sua cultura são muito diferentes das nossas. Mas as questões que ela enfrenta são as mesmas. Como garantir que todos aprendam, e não apenas que estejam matriculados. Como valorizar o mérito sem que ele seja simplesmente o reflexo da origem social. Como formar jovens para os empregos que existem e vão existir. E como fazer tudo isso preservando a autonomia de quem produz o conhecimento.

Voltei impressionado com o que vi, grato pela acolhida generosa dos colegas chineses e com a convicção de que precisamos conhecer melhor o que se passa por l

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