Casa das Garças

A revolução das baratas

Data: 

11/09/2026

Autor: 

Simon Schwartzman

Veículo: 

O Estado de São Paulo

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“Estes jovens sem emprego nem profissão são parasitas como as baratas. Alguns viram jornalistas, outros viram ativistas de direitos humanos, e começam a atacar todo mundo”. Dita assim, mal traduzindo, pelo presidente da Corte Suprema da Índia, a frase provocou a reação de um blogueiro que disse que ele fazia parte, sim, desta juventude “secular, socialista, democrática e preguiçosa”, e convidou todos os jovens “desempregados, preguiçosos e viciados nas redes” como ele a que se unissem em um movimento de protesto, o Partido Popular das Baratas (Cockroach Janta Party – “janta”, em hindi, quer dizer “povo”, o mesmo sentido do “Janata” que dá nome ao partido governista BJP). Baratas da Índia, uni-vos! Em cinco dias, ele conseguiu mais de 20 milhões de seguidores e centenas de milhares de associados. Fantasiados de baratas, os jovens fizeram manifestações em todo o país, e conseguiram que o Ministro da Educação fosse demitido, em um movimento que continua.

O que explica esta reação é a sensação profunda, entre tantos jovens indianos, de que estão sendo deixados de lado no grande processo de modernização pelo qual vem passando o país. A Índia tem universidades e centros de pesquisa de alta qualidade, ocupa posições de liderança mundial em áreas como indústria farmacêutica, produção de aço e serviços de alta tecnologia, sem falar no poderio bélico, inclusive espacial e nuclear, e na última década a economia cresceu a uma taxa média de 6,5% ao ano, quase dobrando de tamanho. Mas, com uma população sete vezes maior do que a do Brasil, milhões de jovens assistem a estas transformações sem poder participar. O sistema de ensino superior cresce devagar, com grandes diferenças de qualidade entre instituições e regiões. Três em cada dez indianos conseguem aceder a algum tipo de ensino superior, proporção parecida com a do Brasil, apesar de a renda per capita na Índia ser ainda bem menor. E nos dois países, mas sobretudo na Índia, uma grande parte dos formados não consegue uma ocupação do nível esperado pelo seu diploma. A diferença é que muitos dos formados brasileiros aceitam trabalhos de menor qualificação, enquanto os indianos, e sobretudo as mulheres, tendem a ficar mais tempo sem trabalhar, esperando uma profissão “digna” que nunca chega.

A Índia não tem uma prova nacional unificada de seleção para o ensino superior como o Enem, mas dois grandes sistemas de seleção por área: o NEET, para medicina, e o JEE, para engenharia. São exames concorridíssimos (2 milhões de candidatos para 150 mil vagas de medicina, e 1,5 milhão para 67 mil vagas de engenharia) e de regras complicadas, que regulam o acesso a instituições públicas e privadas, federais e estaduais, cotas por casta, renda e região, e esquemas de cobrança e subsídio que tentam preservar o mérito e, ao mesmo tempo, compensar as profundas diferenças sociais do país. Faculdades privadas de medicina chegam a cobrar mais de um milhão de reais pelo curso completo, contra valores simbólicos nos institutos públicos de elite. Como no Brasil, as vagas dos cursos mais valorizados acabam ocupadas por jovens de famílias mais ricas e educadas, enquanto milhões entram em cursos de qualidade duvidosa e não conseguem se profissionalizar em suas áreas de formação. Além disso, muito mais na Índia do que no Brasil, jovens talentosos não conseguem entrar nas instituições de boa qualidade e muitos dos que podem vão estudar no exterior e não voltam.

O estopim mais imediato dos protestos na Índia foi a revelação de fraudes no sistema de seleção para a medicina, que levou à demissão do Ministro da Educação, crise que lembra os problemas que ocorrem quase todos os anos no Brasil com o Enem. Com a energia renovada pelas grandes manifestações, o movimento ampliou sua pauta de reivindiações para o comportamento de juízes, funcionários públicos e parlamentares, uma reação legítima à corrupção, mas que não lida diretamente com as causas mais profundas por trás da frustração dos jovens: a insuficiência de vagas de qualidade, a desigualdade de preparação prévia e um mercado de trabalho incapaz de absorver tantos diplomados.

Não será a primeira nem a última vez que jovens se lançam às ruas em movimentos de protesto carregados de boas intenções mas sem clareza de onde querem ou podem chegar. Em países como os nossos, profundamente desiguais não somente em relação à renda, mas também ao desenvolvimento econômico de diferentes regiões e grupos sociais, é muito mais fácil estimular o acesso ao ensino superior de má qualidade do que proporcionar a todos as qualificações requeridas e oportunidades efetivas de trabalho qualificado, gerando frustrações inevitáveis. O ideal seria que, aos poucos, a qualidade das instituições aumentasse, e crescesse também a oferta de postos de trabalho qualificados, gerados, pelo menos em parte, pelas próprias pessoas que se formam. Mas existe também o temor de que as novas tecnologias reduzam cada vez mais o mercado de trabalho qualificado, aumentando ainda mais a frustração das novas gerações. É uma situação difícil, que baratas tontas, por si mesmas, não conseguem resolver.

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